Outra cena de abril

Por: Bruno Carrijo

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À Elisa Campos Kazan

Só o silêncio da noite saberia o que estava por vir. A cumplicidade muda da lua é, em muitas das vezes, o único ponto de iluminação em meio às trevas, em que repousamos nossas cabeças sonolentas.

Uma sala escura, chão de tacos soltos, pequenas tábuas surradas, marcas deixadas pelo andar de gentes que já morreram. Ali, você em pé, diante de todos, vestindo um jaleco cintilante, como um raio exato, uma caixa de giz nas mãos, próxima aos livros que abarrotam a mesa mestra, e as palavras pesando em todas as superfícies escolares que nos rodeiam. Malas antigas aglomerando-se por entre mochilas coloridas com detalhes de novíssimos heróis, que nem sabemos mais os nomes. O novo e o velho, entre quatro paredes quiméricas, dançando na penumbra incognoscível do adormecer.

Um quadro negro se delineia com dificuldades, pequenos espocamentos luminosos completam a cena, irradiados das mãos de alunos cada vez mais distantes. Há letras variadas, suaves e brancas na lousa quase aveludada. Uma predisposição didática se destaca no espaço da frente, dessa sala de aula mastodôntica. Não ouço nada, mas sei que seus lábios soletram de modo solene uma palavra imensa e difícil, seu sorriso entrega uma compaixão que não tem mesmo como mensurar.

Com o corpo cansado de estar sentado, os ouvidos exaustos de interpretações sobre as teorias que nem sequer existem, digo adeus a todos os presentes e, no batente da porta, explico que sozinho não irei muito longe. Relíquias me perseguem até à saída, giram poemas psicografados e reparo que o mármore, que forra o corredor longínquo até a porta da rua, é o mesmo que usaram em túmulos colossais, construídos em uma época em que ainda se escrevia agosto. Precisava caminhar, buscar um novo pano de fundo, menos fúnebre.

Em um ínfimo espaço de tempo, que não se deixa calcular, estamos nós dois sentados em bancos que balançam do lado de fora e falando de coisas sem sentido, oscilando por entre o impalpável de minhas memórias. Ainda não sabemos nada sobre os escritos que registrarão aquelas nossas antigas lembranças vespertinas, os assuntos intermináveis, as horas que gastamos lendo os mesmos livros na madrugada.

Mais uma vez, tudo muda. Você se adianta, passa a me esperar num automóvel veloz de cor indefinida, num pátio florido de jabuticabas. Atrás dos vidros sei que tem alguém confiável a me levar para um passeio em um possível bosque de espelhos. O porta-malas carregado de chaves diversas com que podemos abrir portais que dão em labirintos indevassáveis, caminhos incontornáveis, verdadeiras veredas envelhecidas mas conscientes de suas armadilhas lendárias. Adentramos o reino metafórico e o lampejar do nascer do dia clareia e dispersa o devaneio desta que é mais uma das incontáveis noites do mês de abril: sinto que um novo sopro de vida vem vindo, aos poucos, começa uma nova era.

O tilintar dos metais prenunciam uma inundação de possibilidades poéticas. Continuo seguindo esses signos custosos, acordo com alguns deles presos na garganta, o inconsciente os guarda, sincero, mas, inesperadamente ríspido (escrevo!): "nesse sonho obscuro, sinto saudades suas".

 

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