Tecer o impossível - uma fábula

Por: Baltazar Gonçalves

408558

Vocês já ouviram a fábula do lenhador e sua pobre mulher pobre? Eles viviam felizes na sua pobreza, no campo, sem filhos. Isolados e distantes da vila mais próxima, o silêncio das horas claras ensurdecia a monotonia e o silêncio cru comia cada palavra, sua alegria. Os dois desejavam o campo fértil e trabalhavam muito para isso, mas colhiam apenas lamentos. Um dia o casal encontrou uma criança bem pequena abandonada na margem de cá do lago. Chorava de fome, desamparada, era uma menina linda. Como puderam abandonar uma criatura tão frágil que mais parecia um cisne?


Encantados, a mulher e o lenhador reconheceram o milagre da predestinação, para longe da margem do lago levaram a criança. Cuidaram, alimentaram da beleza. Vestiram corpo frágil da menina com a mesma pobreza que dividiam desde sempre para vê-la crescer em formosura até que um dia.

A menina tornou-se essa jovem linda que agora completara dezesseis anos. No dia seguinte ao aniversário, em meio a um mistério, disse aos pais que faria para nossa miséria belas roupas de ouro. Como assim? Costurar nada em nada só daria véu de nuvem para mal cobrir nosso rosto. Porém ouvimos da jovem essa estranha condição: devo tecer em segredo, ninguém pode ver o acontecer, devo fiar e costurar em segredo e por nenhuma razão podem saber como faço o que faço. Combinado, em brincadeira de criança a gente joga junto o faz de conta. O lenhador e sua mulher aceitaram sem acreditar que no dia seguinte veríamos roupas novas pelos cantos.

E vimos, logo pela manhã. Assim se deu conforme se contou. A moça passou a noite dentro do seu fazer misterioso. Teceu, cortou e costurou impressionantes roupas de ouro. Nossa alegria nunca não pode ter fim.

Estamos ricos e continuamos com fome. Dizia a pobre mulher do lenhador, vamos vender as roupas na vila, seríamos admirados além do lago, teremos ouro e fartura, algumas peças por comida, as outras por uma casa de verdade. E concluiu: teremos tudo que os outros não têm. O marido retrucou impotente, juramos nunca desvendar de onde vem a magia.

Como tudo que nos abastece pede razão que sustente nosso medo de perder, na noite seguinte o casal decidimos espiar a jovem ensimesmada juntar nada ao nada criando o que em nenhum lugar havia. Assim, aos olhos da avareza, o mistério que não devia ser tocado se desnuda. No mesmo instante a jovem que tecia desaparece e com ela evapora o brilho sedutor. Tudo se desfez com a mesma fome com que a velocidade nos devora.

Não fique aborrecido, caro leitor, com o desfecho abrupto - essa fábula inocente não condiz com a realidade. Sabemos que o lenhador e sua pobre mulher não existem. Nem o lago nem as margens tristes da fome. Também a vila no muito distante não existe. O que há são palavras, haver fios invisíveis com os quais podemos tecer o impossível.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras