Memórias rurais

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Pai e filho eram inseparáveis. Na zona rural, o nascimento de um filho homem é motivo de júbilo redobrado, pois ele será de grande serventia nas lides campestres.

O menino já estava com doze anos, quando foi levar almoço para os trabalhadores que colhiam feijão, produto essencial à economia de subsistência que adotavam. Como seu pai precisara ir ao povoado, pediu que o fizesse por ele. Era muito perto e os homens amigos, sendo um deles seu padrinho.

Estavam lá, quase terminando de bater o feijão, quando gotas grossas de chuva começaram a cair e, no céu, uma nuvem preta, em forma de funil, surgiu e, rapidamente, se aproximou. Foi o tempo suficiente de se esconderem na casa de um deles, mais próxima. A tromba d’água caiu sobre a região, as bátegas arrancaram as portas da casa, frente e fundo, fazendo com que um vento cortante atravessasse o local. Subiram em mesas e cadeiras e podiam ver, lá fora, o chão forrado de pedras, granizos brancos como neve e as árvores todas destruídas. Nem um ramo verde via-se ao redor.

O menino, mal esperou a chuva, que foi bem rápida, passar quis ir à sua casa ver o que tinha acontecido. E aí, começou seu maior sofrimento, cujo trauma o marcou até a vida adulta.

Foi correndo sobre o gelo e logo suas pernas começaram a endurecer. Avistando um cupim, muito comum nos roçados, subiu e ficou um tempo esperando melhorar. Chorava, copiosamente, mas ninguém o ouvia naquele ermo, coberto de gelo que brilhava sobre o pasto, plantas e flores. Impaciente, correu, correu e quando não suportava mais, uma goiabeira o salvou. Ele empoleirou–se no galhos desfolhados dela. De cima da árvore, avistou um ponto escuro, ainda bem longe, antes da encruzilhada. Quando viu um cavaleiro cruzar a estrada e ir em sua direção, seu coração aliviou, era seu pai. Estava salvo. Levado por ele a uma casa de amigos, recuperou-se ao redor de um fogo, aceso para o esquentar. Mais tarde, estava em casa, onde não havia nenhum sinal da chuva.

Por muitos anos, toda vez que ameaçava chuva, ele empalidecia e entrava em pânico.Com o tempo e após contar, exaustivamente, a sua história a muitas pessoas que se admiravam dela e se sensibilizavam, foi esquecendo este fato tão sofrido.

Hoje, só retém esta experiência em sua memória.

 

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