SUPEREU

Por: Baltazar Gonçalves

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Eu está sozinho, coitadinho, repare bem. Desde que foi inventado, eu é uma ideia sem dono excelente. É claro que houve na história mais de um eu famoso a prever os efeitos colaterais de pinçar do coletivo essa entidade abstrata e nomeá-la indivíduo. Na verdade, pensar eu cansa. Deleuze cansa, Freud cansa, Lacan também cansa – eu nos cansa: essa coisa de catalogar eu multiplicado como se fosse deus ao infinito dá trabalho. 

Olhando mais de perto. Uma vez inventado, eu é como a roda e o fogo: não é necessário reinventar, basta usar que aparecem inúmeras formas de uso. Objeto de uso, então eu é só isso? Diga lá quem mais com isso lida - mercados e psicanalistas. De fato, quando eu não consome é consumido. Interessante mesmo é eu pensar que pensa quando não passa de pronome no singular. A verdade é que sem conflito não há mudança, resistindo a tudo que o torna fetiche eu se engana. Na auto sabotagem, eu incorpora o onipotente supereu. Mas é uma questão de tempo, qualquer dia eu leva um susto e cai de si no seu real tamanho. Pensando bem, e para ser justo, eu não faz nada - eu pensa que pensa é isso é tudo. Eu não tem pé nem cabeça. Impotente, eu mergulha na angústia. Se a mente interditada onde mora fosse aberta eu escaparia.

Eu é especial, engana a televisão. Quem ganha o que com isso? Entre bilhões de iguais, o onipotente supereu pode até ir à china a pé, vasculhar as fossas marinhas para salvar o planeta, ressuscitar do abismo no terceiro dia. Eu pode mudar o mundo a qualquer momento, só não consegue desconectar-se da netflix.

Constantemente eu deseja, o desejo é a mola do tormento. Eu adora sofrer, aperta a ferida que inventa para saber quanto pode sentir sem de fato existir o que perdura. Despois eu desiste, sem elixir cai na ressaca moral do dia seguinte. Eu é outro, ser outro cansa. Freud descansa onde Lacan imita Deleuze. Eu mergulha cego na dor, é poço sem fundo porque está onde é escuro. Eu não tem superpoderes, é roda dentada na engrenagem falida. Quando muito eu é chama branda de vela curta, brasa, incenso que se apaga, faísca soprada pelo vento.

De volta ao início, alguém sozinho dissimula empatia. No caco do espelho, eu representa a semelhança do divino desfigurado. Além da cabeça grande que pesa, eu é o centro do próprio umbigo. Assim de perto, eu é mesmo feio, sente prazer na tortura da culpa por nada convencido que todo mundo é vítima da apatia. Eu não tem nenhuma certeza, o que pensa pode ser o exato oposto. Trata-se de um experiente sabotador, quando eu crescer vai ser presidente da prisão perfeita.

Eu quer, eu pode, eu consegue - falácia! Nada perturba o sono quando eu faz barulho. Autoengano é um lugar vazio cheio de gente, mas eu não me engana. 

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