Anjos e Demônios...

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Protagonizada por doce mãezinha e criancinha presenciei, recentemente, momento urbano com capacidade ímpar de trazer de volta cenas da minha infância, nas quais mamãe desempenhava quase o tempo todo o papel de educadora integral e nós, filhos, éramos apenas isso: filhos, considerados por ela e papai seres em formação, necessitados de orientação, imaturos até certo ponto. Na nossa casa não tinha essa de hoje, de querer o que não se podia ter;  de exigir o que não estava dentro do orçamento; de questionar diretrizes. Podes e não podes eram muito bem definidos e ai de nós, se ousássemos discutir: aí é que não tínhamos mesmo. Reivindicar, até maior idade, ou maioridade, era verbo mais ligado ao desejo do sorvete extra, ao sonho do livro colorido,  ao vestido novo para a festa de aniversário da colega, que o direito de decidir sobre questões de opção sexual, delicadeza e respeito ao próximo: imagine se eles permitiriam que discutíssemos ou agredíssemos pessoas mais velhas, por exemplo. Crescemos sob preceitos fechados e até algumas chibatadas,  com pouca conversa doméstica, muita ação, pouquíssima reação permitida e psicologia em dose suficiente e balanceada para determinar caminhos, delimitar espaços, aprender a discutir, respeitar hierarquia.  Claro, aconteceram digressões  e em muitos lares, outras pessoas  tornaram-se, por exemplo,  legisladores que legislam apenas em causa própria;  profissionais liberais desleais. Ladrões da paciência alheia estão por aí vestidos com as alegorias exóticas e prepotentes como soe a maioria dos políticos;  mentindo, como eles; desviando fundos, como a maioria, e fazendo leis que os protegem e ferram trabalhadores. Dar de ombros diante da reprimenda era considerado pecado mortal;  fazer muxoxos para desvalorizar a o pito que nos passavam, era jogar gasolina no fogo;  responder a eles no mesmo tom, quando nos davam bronca,  principalmente se havia platéia, era procurar (e achar!) sarna  pra se coçar... Contrariar ordens era perigoso. Comandos do tipo  “Não faça isso! Não faça aquilo! Olha o horário de voltar para casa! Vá a-go-ra fazer as lições da escola! eram obedecidos à risca, senão... Mas, dizia,  a doce mãezinha e sua criancinha saíam do carro e, no estacionamento da loja,  quando a porta do carro deles se abriu violentamente, até quem estava na esquina oposta ouviu a vozinha do anjinho berrando que só desceria se ela comprasse algo para ele. Ela argumentou baixinho, o anjinho esperneou enquanto gritava, cada vez mais alto “Eu quero! Eu quero!”. Ela diminuiu ainda mais o volume de voz, ele esguelou. Ela se abaixou em direção a ele, firmemente, disse-lhe algo no ouvido, o anjinho diminuiu os estertores e movimentação violenta dos braços e pernas, olhou-a espantado. Ao passar por eles, percebi a cara melecada e vermelha do menino, seus olhos abertos e esbugalhados, mãozinhas na boca cheia de baba, lábios inchados do esforço para gritar. Nos olhinhos, a chama da admiração da fera pela domadora; do serzinho que media forças e soube naquele momento que a  opositora era muito mais forte; o reconhecimento da superioridade do adulto sobre a idiossincrasia e petulância infantil.  Saíram de mãos dadas, a mãe absolutamente vencedora, a criança com a lição aprendida da existência de limites na convivência humana.  No tempo de mamãe não se usava psicologia, mas os comandos também eram claros, precisos e objetivos:   “Ou você faz, ou te racho no meio”. Funcionava que só.  

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