CARTA PARA JÚLIA

Por: Baltazar Gonçalves

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Distância não separa ninguém. A distância de Franca à Curitiba até parece nada. O que dizer pra você nessa carta, Júlia, se nos falamos diariamente? Você nunca esteve tão longe do ninho, 785 km do caminho até sua nova casa faz da geografia possibilidades inúmeras. É notável nossa proximidade, estamos conectados irremediavelmente desde antes da maternidade.  

Quando traçamos o seu plano B, de certa forma mudamos para Curitiba juntos. Você seguiu em frente, coragem da rosa no jardim dos caminhos. Se as circunstâncias mudam as pessoas, o que ansiamos desvela-se em nós. Já vivi meu tanto de espalhar-me pelo mundo. Sei que eu te amo é um lugar que fica entre o nomeado e o inexistente, o eterno presente e a eternidade insignificante. Eu te amo concorda tempos verbais corriqueiros e superlativas camadas geológicas. Eu te amo espreita cataclismos.

Intensa e bela flor na última haste do roseiral, agora você aquece o frio trópico de capricórnio. 

Quando se distanciou, não saiu de perto. Ao contrário, penetrou mais minha carne e fez saber que o seu nascimento fora apenas o primeiro parto. Desta vez trouxemos à luz um ao outro, quem somos no momento. O resto é confete.

Depois de um semestre de desafios e conquistas veio a pandemia, o isolamento social. Redefinimos alternativas: fugir ou retornar? Proteger-se à sombra ou florescer? Filhos são perguntas que nos tornam pais e mães. Acréscimo de padecimento no paraíso, desafios que nos fazem crescer.

Foi difícil, mas decidimos juntos - você longe dos gatos, das maratonas do Netflix, das reprises the walking dead... Sua luz, agora, ilumina os quatro cantos do sul. Mapeando os parques, as diferenças sociais e o humor do curitibano. Você está segura, espelha o sorriso dos anjos que coloquei em guarda à sua volta.  

Queria dizer mais. Queria dizer que te amo como não sei dizer. Queria dizer que guardo tanto que nem sei dizer.

A pandemia nos trouxe dilemas que fortaleceram nosso propósito - o seu propósito! Ter propósito é saber a diferença entre viver e sonhar.  A rosa do Pequeno Príncipe que o espera no planeta onde o sol nunca se põe. Você é minha amazona, a minha Dandara de Zumbi dos Palmares, minha Helena de Tróia, minha Cecília-Lispector, minha rainha Vitória ou simplesmente minha Júlia.

Sua coragem mede a minha alegria. Enquanto amadurece, desapropria uma parte em mim demarcando no meu colo seu lugar de filha para sempre amada.

 

Baltazar Gonçalves 

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