Ferramenta para a travessia

Por: Sônia Machiavelli

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Variações sobre um mesmo tema costumam cansar. Por isso, de antemão, peço desculpas ao leitor por um possível tédio. Prometo que será a última das sete crônicas seguidas  inspiradas no isolamento social.Que continua  funcionando  de forma precária, talvez  só para comórbidos (será que a palavra existe?) e idosos. Pertenço aos dois grupos, preciso me cuidar.

Já falei sobre o que fiz  até aqui a fim de  trabalhar emoções ruins que têm me assaltado desde a chegada do coronavírus. Plantei tomates, cuidei de suculentas, desidratei  rosas. Reli contos de Guimarães Rosa, poemas de  Emilly Dickinson e alguns Salmos. Faxinei  casa, passei roupas, experimentei novas receitas, conversei muito  pelo whatsapp, criei nova rotina. Não reclamo. Isso tem sido útil  para aliviar minha raiva diante  das  atitudes  desumanas do governo fascista  aplaudido  pelo séquito de negacionistas, paranoicos, amantes das aglomerações, das fake news violentas  e das piadas sem-graça com as quais pretendem fazer crer que as mortes por Covid-19  não existem. É tudo mentira, invenção da imprensa: dentro dos caixões só existem pedras. Então tá.

 A estupidez é como o universo, não tem limites, disse Einstein, um dos grandes gênios da humanidade. Contestar, quem há de? O Nobel de Física também é autor de um livro cuja leitura recomendo- Sobre Religião Cósmica e Outras Opiniões e Aforismos. Neste volume se encontra outra frase  verdadeira: “ A imaginação é mais importante que o conhecimento.”  Guardo-a  comigo desde que a li e até a levei para a porta da minha geladeira, num pin. Comungo essa ideia, a de que o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação abraça o mundo, patrocina o progresso. Eu diria que ela já  ajudou  muita gente a resistir em períodos históricos hediondos. Quem assistiu ao filme “A vida é bela”, baseado num fato real,  há de concordar. Um pai consegue proteger o filho num campo de concentração criando para a criança  uma narrativa  que  elide o horror. A imaginação é ferramenta preciosa que pode nos levar neste momento obscuro a  transitar sem muito  estresse   pelo “raso do Sussuarão”, lugar onde a morte fica à espreita e é descrito em detalhes no “Grande Sertão-Veredas”.

 “Imagine”, cantaram os Beatles nos anos 70.  Vamos alavancar a imaginação para percorrer paisagens um dia descobertas com  a alegria das coisas vistas pela primeira vez.  Para  retomar conversas com nosso cão ou trocar olhares com nosso gato.  Para  nos emocionar com  a poesia ou viver enredos vestindo a pele de personagens de alguma ficção. Para dançar um tango, ouvir uma voz infantil, fazer conexão com o singular que nos é oferecido em cada entardecer  Para olhar uma tela de Picasso e entender que  momentos violentos podem ser fecundos à mente criativa. Aqui, agora, a imaginação é tão importante como o isolamento, as  máscaras e o álcool em gel.

 Enfim, tenhamos imaginação para cultivar a delicada planta chamada esperança; e identificar  aquela venenosa  conhecida por comigo-ninguém-pode. Será um jeito de atestar, lá no futuro,  que tudo passa e  só se colhe o que se semeia. 

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