Nicola Maníglia Júnior

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Nasceu num 24 de maio de 1921. Completaria 51 anos naquele ano, mas morreu dois meses antes da data de aniversário. Foi embora dia 5 de março de 1972, numa Terça-feira Gorda de Carnaval. A quem o conhecia, afirmo que foi proposital: para mostrar seu desagrado de não participar das festividades carnavalescas daquele ano, acabou com a farra de todo mundo... Lindo, meu pai era lindo. Todo filho acha seu pai bonito. Eu achava meu pai lindo. Tinha um quê de Paul Newman; olhos azuis, loiro, pele dourada. Era alucinado por minha mãe. O amor deles foi bonito, mas tempestuoso, como são as paixões intensas. Tinha profundo respeito por minha mãe e ficava a seu lado, até que ela fosse dormir, enquanto ela trabalhava bolos, doces, salgados, maioneses. Sentava-se no chão, na soleira da porta que dava para o fundo de casa, onde construíra galpão e cozinha extra, banheiro e quartinho, que dividiam: metade para sua tralha de pescaria; metade para os tabuleiros de bolo e bandejas de mamãe. A cena que retenho na memória geralmente acontecia nos sábados, quando mamãe trabalhava até tarde para entregar suas encomendas. Ali sentado, pegava o rádio antigo de válvulas, daqueles que tinham fio terra que, segurado, melhorava a qualidade de transmissão. Ele gostava de ficar descalço em casa. Punha calças de brim – geralmente de brim claro, camisa de linho branco amarrotada, sentava-se à soleira da porta, segurava o fio-terra, punha os braços apoiados sobre os joelhos, um monte de meninos montado nele. A meiga Maria Helena, o xodó, apoiada na perna esquerda, cisco de gente com as mãozinhas segurando o rosto. André Luiz, o figlio maschio, apoiado na outra perna. Eu, empoleirada nas suas costas. E Wilson, o Bezerrinho, engatinhando na frente. Através das ondas médias da Rádio Nacional, César de Alencar apresentava a Parada dos Maiorais. César Ladeira lia seus textos. Marlene cantava e Emilinha saudava a Marinha Brasileira. Bons tempos aqueles em que as Forças Armadas escolhiam Rainhas e Princesas... Papai tinha apelido: Bezerrão. Já contei essa nada edificante história. Posso perfeitamente repeti-la, só não o faço agora, porque é dia de aniversário dele, melhor só louvações... A foto é de sua formatura, logo após sua aprovação no concurso que lhe garantiu ingresso no quadro do Banco do Brasil. Papai morreu cedo, logo após o nascimento de minha primogênita. Aliás, ela foi o único neto que carregou no colo, apenas ela experimentou manga e maionese ainda na fase de aleitamento, que esse negócio de comida apropriada nunca existiu para ele: “Olha como ela gosta de maionese!” E lambuzava a boquinha dela com o bico cheio da pasta amarela, que naquele tempo não tinha Hellman’s, era tudo feito em casa, com todos os ovos de direito. Os outros doze netos, que viriam depois, não tiveram esse privilégio. Olho as últimas fotos da família, percebo que ele e minha mãe estão presentes, ainda que não apareçam. Ouço Ti Voglio Tanto Bene, tenho vontade de cantar para ele. Acho Strada nel Bosco na lista de sucessos italianos, me parece ouvi-lo cantar. E, quando nos encontramos, vou ensaiar com ele Va Pensiero, de Turandot, para cantarmos juntos. Zucchero e Pavarotti que se cuidem...

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