Alinhamento de astros

Por: Baltazar Gonçalves

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Diziam que tinha sido mãe de família, zelosa dona de casa, exímia no ofício da costura, amiga das moças mais desejadas, cobiçada até pelos padres,  mais bonita que a filha do prefeito e respeitada pelos ciganos que perambulavam entre os homens de bem. Diziam que fora bem nascida não sei onde, experimentada na magia oculta de ler mãos, estrelas e cartas, que sua audição captava o estar longe. Vestida como dama não escondia a feiticeira que realizava o desejo dos homens, é o que diziam. Da sua visão penetrante todos se esquivavam. Sua força inigualável e beleza enigmática eram mistério tecido por magia nos pontos de cada novo bolso em seu casaco, sempre posto sobre os ombros, como diziam as más línguas. O certo é que aquela mulher guardava mistérios no discreto inseparável dela.

Então, numa noite abafada,  aconteceu essa conjuntura do alinhamento de Júpiter e Urano. Ninguém  ousou aparecer sem máscara, todos ficaram em casa tramando desfazendo aparências sem o menor sinal de compaixão. Curioso poder tem a luxúria sobre bêbedos cegos de paixão.

Enquanto a tal mulher acrescia outro bolso em seu casaco, o marido a traía; o filho a roubava para beber com raparigas ardilosas que  lhe tramavam emboscadas. Enquanto outro bolso costurava  em seu casaco, a filha do prefeito exigia do pai ausente que deportasse a invejada que lia mãos, estrelas e cartas, e o pai, que tinha poder sem autoridade, acatava a vontade de menina mimada por ser mais cômodo que lhe dar atenção. Enquanto outro bolso era tecido no casaco, o padre ouvia das alcoviteiras bajuladoras da sagrada família impropérios indignos de serem descritos aqui. Elas destilavam seu veneno  reprimido desejando o pecado encoberto pela batina e tentavam justificar a má sorte da bruxa. Enquanto a tal mulher acrescia outro bolso em seu casaco, entre os ciganos que dormiam do outro lado da ponte, um se levantou alerta. Espantado sonâmbulo, acordou dentro do sonho sem saber o que o movia e pôs se de prontidão ao lado do seu cavalo branco.

Essa mulher que a todos servira ao longo dos anos, agora veste o velho casaco com seu bolso novo e atravessa o prostíbulo onde o filho viciado bebe com ladras assassinas, passa à sombra do palacete do prefeito corrupto e desvia da escadaria de dentes afiados na porta da santa igreja. Essa mulher que a todos servira ao longo dos anos, atravessando a ponte atravessa o rio, e naqueles braços sem perguntas apoia-se para montar o cavalo selado por uma elegante trama de finos fios dourados.

No fim da mais áspera madrugada, enquanto o vazio digeria cada qual no seu ódio, desfazia-se a terrível conjuntura dos astros. E a mulher sóbria com seu casaco mágico alinhou-se ao cigano desconhecido,  feito Júpiter e Urano. E partiram sem deixar rastro que desse para contar outra história.


 

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