Fique bem

Por: Ligia Freitas

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O “tem que ficar bem” não faz bem. Quantas pessoas nos dizem essa frase, como se fosse entoar um mantra do Tibet? 
 
E o que elas querem dizer com isso, que você precisa ficar bem como era antigamente?
 
Será que é possível não se sensibilizar com a tragédia alheia, num país afundado por todos os lados e um vento pandêmico que não se sabe ao certo de onde vem? 
 
Veja bem, “o estar bem” mudou de configuração, antes era multicolorido, fosforescente, luminoso, agora o que vale é o humor de cada dia. Com que roupa eu vou para a sala? 
 
Eis a questão, e acredite escolher um tom desanimador também quer dizer que tá tudo bem.
 
O estar bem de hoje não é mais como era antigamente, porque tem o “apesar de” e isso faz toda diferença.
 
Deixemos de pedir aos nossos amigos para que eles fiquem bem, vamos pedir para que eles se cuidem e para que eles fiquem do jeitinho que eles conseguem ficar. 
 
Atravessar esta ponte já tá difícil, e tem gente exigindo que a atravessemos com saltos, malabarismos e piruetas. É possível? Claro, porém não vamos generalizar, poucos têm o dom do circo ou a cabeça no monte do Tibet.
 
O que temos verdadeiramente é ausência de controle da situação, falta de contato humano, de perspectiva, de alternativa, um desconhecido que impera e o que nós pedimos? Fique bem, caro amigo, só peço que fique bem. 
 
Aceitar-se é o primeiro passo, aceitar o medo e deixar que ele te impulsione para frente, aceitar a angústia se tornar criatividade e a ansiedade mobilidade. 
 
A aceitação é o primeiro passo para a transformação. 
 
Acredite, “você não tem que nada”, como diz minha mãe, faça o que está ao seu alcance, o possível já é o bastante, coloque o seu melhor look para ir até a sala da sua casa ou esqueça tudo isso e dance conforme a sua valsa. 
 
Dê o seu melhor, ainda que seja um bom dia para o espelho, não pense que precisa se sentir inteiro.
 
Quando falar ao telefone com um amigo, não se esqueça de que não precisa pedir nada e assim receberá nada em troca. 
 
É que agora o que basta é ouvir a voz de quem  está ali do outro lado, ele pode estar triste ou cabisbaixo, e tudo bem não estar bem, porque esse é o novo estar bem.
 
Se o medo se transformar em pavor, a ansiedade em terror, e a angústia em tremor, procure a ajuda de um especialista, não para ficar bem, mas para da vida não ser um refém.

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