Toda vida importa

Por: Sônia Machiavelli

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Palavras ligadas a uma emoção permanecem vivas no léxico de nossa alma, sujeitas a serem retomadas quando algum sentimento parecido àquele que as enraizou é despertado por fato, gesto, ação, imagem, outros tipos de comunicação. No contexto de desamor que os últimos tempos vêm acentuando entre os homens, o substantivo “consideração” tem intermitentemente frequentado meus pensamentos.

Minha mãe usava esse vocábulo em voz baixa e respeitosa, de tal forma que aprendi cedo a associá-lo a situações que envolviam dignidade. Ela achava que devíamos ter consideração pela vizinha que nos presenteava com lindas mangas de seu quintal, pela madrinha que nunca se esquecia de me mandar um telegrama nos aniversários, pela amiga que nos assistia quando ficávamos doentes, pela comadre que a ouvia com atenção nos dias nublados. Mas também pela locatária que entendia quando o aluguel atrasava, a freguesa que lhe levava costuras, o verdureiro manco apregoando produtos na rua. Os doentes, os idosos, os mais frágeis, os que guardavam luto, os que moravam em asilo, os que passavam necessidades - a todos esses achava que devíamos consideração. Hoje penso que para ela o sentimento tinha a ver com respeito, bondade, gratidão, estima, humildade; mas principalmente com algo que só vim a descobrir décadas depois, no reino onde nascem as palavras.

Foi a etimologia que me ensinou que considerar significou primeiro caminhar olhando a posição dos astros para não perder o norte quando bússola ainda não havia. Cum sidus. Com as estrelas. Em tempos idos, ter intimidade com as constelações fazia a diferença entre chegar ao destino pretendido ou perder-se. Aos poucos Dona Semântica foi modificando o sentido do termo sem se apartar do berço. Seria bom nunca nos esquecermos disso. As relações entre as pessoas seriam muito diferentes se elas orientassem a rota de seus gestos pelo que é fundamentalmente humano, se caminhassem pela vida considerando o outro como parte do todo que integramos.

Afinal, estamos reunidos sobre uma mesma superfície. A mãe Terra nos carrega ao redor do Sol cumprindo precisa trajetória elíptica. Somos seres diminutos, com prazo de vencimento, dotados de instintos destrutivos mas também capazes de sentimentos de extrema generosidade. O que mais nos aproxima é a compaixão, que para ser vivida pressupõe capacidade de ocupar o lugar do outro, sentir sua dor, frustração, medo, fragilidade. O que mais nos enobrece é a consideração, que nos assoma quando nos damos conta de nossa comum humanidade e discernimos que precisamos caminhar juntos, em harmonia, caso contrário sairemos da órbita e entraremos em combustão.

Acho que a escassez de compaixão e consideração no mundo contemporâneo tem levado à indiferença que é gélida e pode ser mortal. Há dias policial branco matou cidadão negro com crueldade injustificável numa cidade dos EUA e à vista de centenas de olhares. Na mesma ocasião, o presidente da República do Brasil voltou a se mostrar insensível à morte de mais de trinta mil brasileiros acometidos pela Covid-19, tratando o assunto de forma banal, apequenando a vida. No varejo ou no atacado a falta de empatia é a mesma.

Como o joelho no pescoço da vítima, a frieza, o autoritarismo, o menosprezo, a grosseria, o desrespeito, o abuso, o escracho, a destruição (e o medo do coronavirus) estão pesando na carótida de milhões de brasileiros. E porque a falta de oxigênio ameaça a vida, não se estranhe se de repente, como em dezenas de cidades norte-americanas, as pessoas saírem às ruas brasileiras gritando em coro a frase trágica de George Floyd : “eu preciso respirar”. Ou se os jovens, que são decisivos nas mudanças, marcharem empunhado cartazes onde esteja escrito ”Toda vida importa”.

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