A festa de Lenice

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Num arraial onde não havia luz elétrica, nem linha telefônica ou asfalto, isto na década de 70, as poucas centenas de moradores do local cultuavam a tradição de uma festa, em louvor a Nossa Senhora dos Remédios que ocorria no frio mês de julho e era o acontecimento mais importante do ano. Os que moravam na zona rural mudavam-se para lá, durante os quatro dias, de quinta a domingo, alojando-se em casas próprias, desocupadas, de familiares, de amigos, enfim, todos acomodavam-se.

 

O espaço das barracas e a cobertura eram demarcados com madeira nobre nativa, cobertos e ladeados com folhas verdes do coqueiro indaiá, abundantes na região. Nelas vendiam bebidas, espetinhos de carne, pão de queijo e doces. Mesinhas e cadeiras eram dispostas ao redor. O padre vinha da cidade próxima, assim como a banda de música, com experientes e afinados músicos. Os fogos eram fabricados nesta mesma cidade por um pai e seus filhos, encomendados com antecedência. Um gerador iluminava, fracamente, o pátio, em frente à igreja, onde geladeiras alugadas aconchegavam as bebidas. Não faltava uma fogueira imensa que clareava o céu com seu ardor e aquecia o ambiente da festa.

 

Veio a semana da festa! Lenice tinha quinze anos e trabalhava com uma família, cuidando da criança, filha de uma professora, em uma cidade não muito distante. Aguardava a festa com todo o entusiasmo de uma mocinha sonhadora. Vestida com uma jardineira jeans, bordada com galhos floridos, na frente, sapatos novos e com o brilho e encantamento da juventude, despertara olhares dos mocinhos presentes lá. Entre eles, escolheu Diquinho, o que mais tocou seu coração. Logo estavam atrás da igreja, no escurinho perfeito aos enamorados para beijinhos e afagos.

 

Um ano se passou e, novamente, Lenice foi à festa, agora moça feita, esbelta, sorridente, bonita, com o pensamento voltado para o jovem Diquinho. Ele a esperava e lhe prometeu casamento. As famílias foram avisadas e marcaram para o próximo ano. Ela que se preocupasse apenas com o enxoval e o vestido de noiva. Ele, filho de fazendeiros, organizaria todo o restante. Ela voltaria para morar em sua terra natal, em uma bela casa de fazenda.

 

Desta vez, o padre rezou missa e celebrou casamento. Ela saiu da igreja com seu marido, ao som de fogos e da banda de músicos que disputavam quem fazia mais barulho. Uma chuva de arroz caiu sobre eles, simbolizando fartura.  Degustando as prendas oferecidas pelo noivo, em sua maioria frangos assados, todos comemoraram e beberam felicitando os noivos. Não importa a época ou o lugar, histórias de amor sempre existiram! Creio que permanecerão enquanto o ser humano tiver esperança!

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