Eu beija-flor de mim

Por: Ligia Freitas

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Lembro como se fosse ontem

Da gravidez do João

Há quatro anos

Tinha o tal do Zikavírus para aterrorizar

Mas hoje vejo que isso não era um problema

 

Lembro dos olhares

Ah os olhares da família

Das pessoas na rua...

Pareciam beija-flores rumo à flor

Eu: perfume, luz, ímã

Não havia quem não sorrisse ao cruzar com a grávida

Recebia o primeiro pedaço de bolo

Um lugar na fila do ônibus, restaurante, cinema, teatro

E até no coração de pessoas malditas

 

Mãos e mais mãos, de qualquer um na barriga

Não disse que era ímã? Um estranho à minha porta?

Não, eu gostava desse paparico

Sou carente de nascença

Filha do meio (desculpa dizer caros pais): a esquecida

 

Página virada

Novos tempos

Tempos de Coronavírus

Eu grávida novamente

Querendo exibir meu ventre

Sem saída

 

Olho para o espelho

É preciso me admirar

Um elogio de boca própria

Um afago na barriga

As pessoas, benditas pessoas

O corona tirou de mim

 

Tento uma fotografia sozinha

É preciso sair do lugar

Mexer os braços

Me contorcer no chão

Faço força para não me lembrar do número de corpos estendidos no chão

 

O Zika me afastou do conforto

Era pano pra todo lado

Roupa de frio no calor

Suador, pressão baixa, repelente até nos lábios

Mas o que eu não percebia era que o Zika não me tirou o principal:

Meus laços de família

 

O corona me afasta de cada rosto

O problema agora são os outros

A terceira guerra mundial me repele do calor humano

Está terminantemente proibido ver gente

A trincheira é a porta de casa

A armadura uma máscara

E o inimigo meus entes queridos

 

Procure sorrisos nos olhares

Amor pelos celulares

Nunca foi tão preciso SER

Gostar de si

 

É hora de se desprender dos aplausos e reconhecimentos alheios

Não quero aqui agradecer o meu malfeitor

Mas ele me fez deixar de ser flor

Para me tornar beija-flor de mim

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