Carlos de Assumpção é tanto mar entre nós

Por: Baltazar Gonçalves

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Depois de desligar o telefone, fiquei com as palavras: escreve sobre nossa conversa.

Era Carlos de Assumpção, o poeta do Tietê que adotou Franca como cidade natal, o poeta de asas negras livres neto de negros escravizados, o poeta que cresceu ouvindo histórias de luta de seus ancestrais - aos 93 anos, um menino curioso que quer saber tudo. Eu tinha ligado para parabenizá-lo.

Nesse momento histórico a voz de Carlos de Assumpção ganha projeção nacional. Reconhecido há muito como o poeta da resistência na luta contra o racismo, o tambor no seu peito repica desde sempre. Agora que sua obra e sua vida são coroadas pelo reconhecimento unânime, o poeta me pergunta: porque aos 93 anos?

Sinto a fisgada da nostalgia, e minha voz também embarga.  Quantos jovens pretos e brancos pobres, ainda lutarão até completarem 93 anos para, talvez, celebrarem suas conquistas? A meritocracia justa e necessária não encobre o fato de que o negro não nasce a salvo nesse país.

A honra de ser contemporâneo e amigo de Carlos de Assumpção ajuda compreender que o mérito, conquistado a duras penas, é bandeira a ser erguida pelas gerações que virão. E concordamos refazendo o raciocínio (de coração aberto por que perto dele nenhum coração permanece fechado) de que embora essa batalha esteja ganha a guerra contra o racismo institucional não está vencida.

_ Daqui a cem anos, quando erguerem seus poemas como estandarte em batalha, sua voz o fará presente, Carlos, vivo e vibrante como o ouço agora.

_ Eu queria que não houvesse mais luta.

_ Eu também.

Rimos. Ele é sábio. A conversa flui.

_ E como está a nossa antologia, Baltazar? A pergunta é direta, mas entendo como se ele perguntasse: o que estamos fazendo com o que recebemos?

Então retomamos a presença de espírito que nos liga ao presente: ao agora esfacelado no perigo eminente de uma ascensão fascista; ao instante que celebra Carlos de Assumpção e a obra da sua vida inteira; ao agora em que lançamos a primeira antologia TANTO MAR ENTRE NÓS pela editora Penalux. Eu tinha ligado para avisá-lo que a antologia de poemas e contos que estou organizando está finalizada, que o lançamento está próximo e que estou feliz por tê-lo nesse coletivo de autores e autoras, projeto que venho matutando há dois anos.

Depois dessa conversa fiquei com as asas do poeta em torno da minha cabeça, palavras de um homem de luta que tem o coração sereno. E tentei recuperar nossa conversa como prometi. Olhemos à nossa volta, há tanto mar entre nós...

O que nos une pode nos separar? Navegar nossa humanidade com o propósito de ressaltar nossas semelhanças nos aproxima e nos une fortalecendo-nos: somos diferentes e falamos a mesma língua; somos diferentes e compomos a mesma nação; somos diferentes e lutamos em busca da unidade apesar das diferenças sociais históricas.

Haverá sempre por quem gritar. Por isso escrevemos, Carlos de Assumpção?

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