“Memórias de um cirurgião”

Por: Sônia Machiavelli

410042

Memórias são matéria intrínseca da literatura autobiográfica. É preciso tê-las vivido para contá-las. O autor de um livro desse gênero resgata pela evocação pessoas, lugares, objetos, situações e fatos significativos que permaneceram de forma indelével na massa de imagens registradas pelo cérebro e fixadas no coração. Creio que basta ser humano para reunir ao longo da vida milhares de histórias num baú de lembranças a qualquer momento passíveis de serem acessadas por estímulos diversos. Mas são poucos aqueles que, tocados pelo desejo de transmitir esse rico e original patrimônio a outrem, conseguem cumprir a primeira das motivações da escrita literária segundo Bakhtin- oferecer experiência única pela via da palavra escrita.  

 

A obra memorialística costuma conquistar desde o início pela linguagem do autor. Embora na maioria das vezes a escolha seja obviamente o discurso denotativo, que imprime veracidade ao relato factual, quem escreve não poderá escapar da conotação para levar ao leitor seus sentimentos e avaliações de mundo. O estilo é o homem. Metáforas, antíteses, analogias e tantas outras figuras traduzem experiências nem sempre fáceis de nomeação- aquelas que podem ser pesadas como a angústia ou leves como o humor. Entre uma e outra, abre-se largo o leque das muitas emoções que mobilizam a alma.  

Foram essas minhas primeiras reflexões ao fechar o volume “Memórias de um cirurgião”, livro que recebi há poucos dias do autor, o médico José Carlos Vaz. Comecei a leitura despertada pela curiosidade, primeira mola propulsora do texto que seduz; depois, povoada pelo desejo crescente de acompanhar relatos que foram desenhando um mapa do nosso Brasil multifacetado. Pelos plantões do médico, e depois pelas salas de cirurgia onde ele opera, passam pobres e ricos; mulheres, homens e crianças; gente célebre e anônima; universitários e analfabetos, jovens e idosos. Cada um deixa marcas especiais no coração do cirurgião que ao recuperá-las para o leitor, o faz com considerações sensíveis sobre traços humanos que nos são comuns e deveriam nos unir em lugar de nos afastar.  

 

As situações protagonizadas no começo da carreira em hospitais cariocas são todas impressionantes. E mais ainda aquelas em que, precisando atender pacientes em domicílio, o médico se coloca ora em risco de vida, ora em contato com uma miséria que incomoda porque reflete o grau de indiferença do poder público em relação às favelas e periferias onde a existência parece valer bem pouco. Vasto é o painel que se desdobra aos olhos do leitor, composto por pessoas visitadas pela dor e pelo medo da morte. A todos o médico e sua equipe socorrem com profundo sentido humanitário. Mas é sobretudo quando usa o bisturi que o cirurgião nos faz adentrar mais profundamente nossa fragilidade. Nas vísceras que precisam ser descoladas, nas hemorragias que necessitam de contenção imediata, na retirada de tumores encaminhados a biópsia, no perigo de lesar uma artéria, enfim, na exposição nua e crua do que nossa pele oculta é que ele nos faz compreender como somos frágeis e fortes ao mesmo tempo: nosso corpo suporta ser cortado e restaurado porque os tecidos têm condições de se refazer; mas sempre haverá exceções.  

 

Sem nenhuma arrogância, e reiterando o perigo de recair na vaidade, o autor conta sua vida desde a adolescência, passando por vestibulares, anos de faculdade no campus da Praia Vermelha, residência exigente, lições dos mestres, camaradagem boa com colegas, cursos no Exterior, centros cirúrgicos, mudança para a Franca nos anos 80, grande estresse depois de longas cirurgias- até o dia em que se decide pela desaceleração, necessária depois de meio  

século de trabalho. É possível que o livro se instaure como marca desse ponto de inflexão.  

 

Cada um dos cinquenta e seis textos apresenta estrutura autônoma, podendo ser lido isoladamente, como registra no prefácio Lúcia Figueiredo. Mas todos trazem implícita uma voz única, a do autor, que como fio os transpassa conferindo unidade e formando um colar vivo de compaixão, acolhimento, amizade, tolerância e ética. Ler “Memórias de um cirurgião” é se conectar com a beleza de uma vida que se conta com a certeza das melhores escolhas (apesar dos riscos); também com a clara consciência, construída pela experiência, de que “médico não é Deus”, como lembra Ruth Maria de Freitas Becker na orelha. Por fim, mas não menos importante, ler os textos do primeiro livro do Dr. José Carlos Vaz é permitir-se crescer em termos de empatia pelo outro em suas complexidades, é tentar ver “ a alma além da parte física”, como frisa na contracapa Dadá Arruda. Não poderia ser mais oportuno o lançamento do título neste 2020 onde a figura do médico, associada à dedicação, competência, gratidão e esperança, tem estado presente todo o tempo no espírito das pessoas de bem 

 

*** 

Em tempo: há que se parabenizar a revisão primorosa dos originais e o trabalho gráfico de excelência da Ribeirão Gráfica 

 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras