Reality Z: Zumbi Coca-cola

Por: Baltazar Gonçalves

410046

Se você já ouviu as críticas desfavoráveis à série brasileira Reality Z da Netflix e se contorceu diante de um mais produto enlatado que imita os importados, quero chamar sua atenção para o contrário.  

 

Desde “A Noite dos Mortos Vivos”, de George Romero, filme de terror independente realizado em 1968, nossa percepção sobre os vivos tem mudado com a mesma inventividade, e velocidade, com que o gênero terror-zumbi se renova a partir dos clichês estabelecidos nas estruturas narrativas. Ao misturar corpos putrefatos e consumidores na mesma escada rolante dos shoppings centers, a gente se pergunta: o que difere uns dos outros?  

 

Quando os mortos imitam os vivos, é difícil dizer quem está realmente morto.  

 

Falando de mim, sou entusiasta da Literatura Fantástica; uma boa história de terror está entre as mais elevadas formas de arte que, a meu ver, contém drama e tragédia. Para não falar sozinho, Allan Poe, Mary Shelley, Stephen King e Clive Barker (para não estender a lista até o século 17), desdobram o realismo romanesco em territórios assombrosos onde nossa identificação com o obscuro, o inominável reprimido e o oculto das percepções massificadas acordam. A ficção de terror abarca também o humor fazendo contraponto, mas o tom predominante será sempre o sinistro. O efeito estético da composição narrativa causa, por meio dos elementos cenográficos, atmosfera e estruturação, aquele deslocamento impactante no leitor diante do livro, filme ou série. The Walking Dead, baseado na história em quadrinhos escrita por Robert Kirkman, é a referência mais próxima da nova geração consumidora de terror-zumbi. 

 

Talvez o leitor desse Caderno tenha tentado assistir à série Reality Z e não conseguiu superar a péssima atuação da modelo ex-BBB Sabrina Sato nos três primeiros episódios. Entendo e compartilho da mesma primeira impressão. Talvez a escolha dessa atriz no elenco seja o melhor clichê da série, tão difícil de ingerir como muitas atrações da TV. Entretanto, visto em espelho, superamos o avesso do avesso e seguimos na vertigem da metalinguagem que, entre outros artifícios, cola sobre a atrocidade da matança uma trilha sonora dos anos 70, reportando-nos aos anos de chumbo da ditadura militar..As faixas buscam combinar cultura pop internacional (Summer 68, do Pink Floydcom as reflexões de artistas brasileiros (Panis et Circenses, dos Mutantes) e mais. Humor negro e referências à cultura pop, Reality Z é uma adaptação da minissérie britânica “Dead Set” produzida por Charlie Brooker, o criador de Black Mirror. 

 

Não há nada novo sob o sol, Renato Russo complementa: “quando nascemos fomos programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos U.S.A. Desde pequenos comemos lixo comercial e industrial, agora chegou nossa vez, vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”. 

 

Para quem não assistiu, ou desistiu, a série Reality Z é uma opção bem executada que não substitui as manifestações “populares” que assistimos pela TV nos últimos dias. Porém, ao evocá-las, nos provoca com aquela pergunta: quem são os vivos e quem são os mortos?  

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras