Histórias de um cirurgião

Por: Luiz Cruz de Oliveira

410252

Abri a valise, selecionei os instrumentos indispensáveis ao procedimento: quarentena, óculos, lupa. Dispus-me a realizar uma complicada operação. Operação matemática: lupa embaixo de óculos, óculos embaixo de quarentena. Sobre a mesa, já preparado, o livro: HISTÓRIAS DE UM CIRURGIÃO. Desprovido de auxiliares, fui dispondo coluna sobre coluna, página sobre página, capítulo sobre capítulo. O bisturi de meu entusiasmo foi cortando o tempo. O resultado da soma foi surgindo. Tirei a prova dos nove e sorriso de menino, ao desenhar as primeiras letras, iluminou meu isolamento. Eu acertara ao ler o livro de José Carlos Vaz.

A leitura me impôs algumas reflexões.

Li, não sei onde, que a leitura atenta de uma obra indicia ao leitor muito da biografia de seu autor, que se projeta, mesmo sem o saber, mesmo não o querendo, em seu trabalho. Nestas histórias acontece isso. Quem não conhece o José Carlos Vaz, e ler seu livro, pode fazer um retrato muito aproximado do autor: uma pessoa calma, tranquila, comedida, segura, que ouve muito mais do que fala, que ainda parece carrear, na maturidade, aquela simplicidade mansa que caracteriza o adolescente. Emerge das narrativas um homem humilde, bondoso, distante da malícia, ingênuo até. E, realmente, de tudo isso, o autor tem um pouco.

Outra reflexão se impõe: a linguagem é simples, direta, despojada de arabescos. Sua literalidade, todavia, aparece ressaltada justamente desse despojamento. A narrativa é construída em terceira pessoa, mas o ponto de vista é “de fora”. E o autor assim opera porque o protagonista das narrativas, que se envolve em confusões, que executa cirurgias, que salva vidas, que erra e que acerta, que convive, não é o cirurgião que hoje, na maturidade, lança os olhos experientes, bem-humorados e humildes pelos caminhos percorridos. O protagonista é o adolescente, o estudante de medicina, o plantonista, o aprendiz de cirurgião, que hoje o autor vê de longe. Vê e tenta compreender sua imaturidade, suas dúvidas, seu longo aprendizado, suas angústias, seus erros e acertos. Essa escolha de atitude, essa forma de narrar, dá ao livro de José Carlos Vaz a literalidade que nem sempre os livros de memória conseguem alcançar.

O valor literário avulta, no entanto, o mais profundo da obra: o retrato do homem de seu tempo. Desfilam diante dos olhos do leitor o adolescente e o velho, o pobre e o abastado, a prostituta e a religiosa, o bêbado e o trabalhador, o intelectual e o faxineiro, o ladrão, o malandro, o político esperto, o general, o militar raso, o favelado... enfim, seres humanos de uma época de nossa história estão fixados no livro, vestidos de toda sua grandeza, de toda sua miséria.

Sem cansaço, chego ao término da operação-leitura. Fecho as paredes, aliás, o livro, anoto estas breves reflexões e rendo graças.

Bendigo meus óculos!

Bendigo minha lupa!

Bendigo esta abençoada quarentena!

E bendigo, sobretudo, estas “Histórias de um Cirurgião!”

 

 

 

 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras