Devaneio hipócrita

Por: Ligia Freitas

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Tô cansada do politicamente correto

Pisou na linha verde-calada

Na linha amarela-levante os braços

Na linha rosa- vai ver se eu tô na esquina

Na linha roxa-xinga de trouxa

Na linha branca- se abrir a boca desmancha

 

E assim a costura da vida não perde a linha

Amizades terminam

Brigas começam

Famílias discutem, desquitam, aniquilam-se

Por quê?

Porque eu uso a minha régua nos relacionamentos

Só a minha, com as minhas medidas

Eu sou dona do nosso bordado

Você não cabe nele eu descarto

Sangrando, mordendo, corroendo por dentro

Mas eu o faço

 

Nos entroncamentos humanos também uso a minha balança

Os pesos eu mesma amordaço

Você não tem peso algum comigo

Ele tem, se tem...

Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três

Vendido um ser humano

 

Minha língua é melhor que a sua, fazer o quê?

Eu sei, eu sei, eu sei

Você?

 

Se desconhece a minha tribo

É inimigo

Quer pão com mortadela?

Vem cá, pobrezinho quer tirar uma foto com esse amigo?

Preto veio, pega na minha mão

Hoje é dia de pão e circo

Virei palhaça, tô rindo à toa

Toca o sino aí pra mim, meu povo

 

Moço, tira seus sapatos

Não prefere andar descalço?

Isso tá certo, aquilo tá errado

Onde foi que eu li mesmo?

Não vem ao caso

Se eu li eu sei

Nosso caminho eu mesma traço

Você quer falar alguma coisa?

Claro, a dialética é fundamental

Peraí que vou ali comprar um protetor auricular

Para tapar os meus ouvidos

 

Sabe, tô cansada, com preguiça de te ouvir

Eu já disse o que eu tinha de dizer

Que porre de mundo

Imundo, cheio de mimimi

Escuta, somos todos iguais, não somos? Não somos, não?

Pera aí, deixa eu arrumar minha coroa aqui que tá caindo.

 

 

 

 

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