O poço solidário

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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O córrego Bateia nasce nas encostas da Serra da Canastra e segue seu curso, descendo para as partes planas e levando vitalidade às inúmeras fazendas, antes de desaguar no Rio Grande. Em seu percurso tem pequenas quedas d’água que formam poços não muito profundos, com água cristalina e deliciosos para nadar.

Os dois cunhados voltavam de um baile na fazenda vizinha, de madrugada, bem eufóricos com o divertimento e com a colaboração do álcool excessivo que tinham consumido, que costuma turvar a mente e abolir a censura. Ao cruzar o córrego Bateia, entraram com roupas e cavalos no poço ali formado. Após uns tombos na água, muitas risadas, gritos e quase afogamento, conseguiram sair.

Eram noivos de duas prendadas e graciosas irmãs, mas programavam umas escapadas, como esta. O difícil foi explicar para o pai de um deles que o revólver Smith & Wesson, niquelado, com cabo de madrepérola, havia se perdido no poço. Era um presente de estimação e o pai ficou muito aborrecido.

Naquela região rural, há uns bons tempos, havia matas fechadas e um revólver, para quem sabia manejá-lo, era de grande valia contra lobos, animais ferozes e peçonhentos.

Com a noiva foi tudo mais fácil, corações enamorados são compreensivos e dóceis, mais ainda quando se está de casamento marcado.

Passado um ano, no dia mais feliz para o noivo, um conhecido aproximou-se dele e disse ter lhe trazido um presente. Em meio a muita surpresa ele apresentou o revólver perdido, só um pouco enferrujado, mas perfeito. Ele o tinha encontrado, no fundo do poço, em um de seus mergulhos por lá, quase um ano após ele ter sido perdido.

Muito bem guardado, como relíquia e objeto de uma história incrível, ele está com o filho mais velho do então jovem aventureiro, que o restaurou e deu-lhe lugar de destaque em sua sala, em meio a outros objetos de decoração. Toda vez que alguma pessoa vê o revólver, esta história é contada para espanto e incredulidade de quem a ouve.

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