Veja lá e seja

Por: Baltazar Gonçalves

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Eu tinha tanto pra dizer, foi acumulando – sabe como é? Quando a gente deixa de lavar a roupa suja, as peças amontoadas pedem a máquina de lavar e você simplesmente tira outra camisa limpa do guarda-roupa deixando pra depois que as coisas se resolvam por si.

Acumulei pensamentos e emoções que não se tornaram palavras que pareciam perfeitas para representar minha angústia (o cesto de roupa suja incluía ansiedade, temor, mal humor, ira e raiva); o descontentamento geral sufocou minha capacidade de ser grato por estar vivo e ser capaz de comunicar a outros seres humanos que, não obstante a distância fria da nossa comunicação, se encontrassem em igual estado de perplexidade e desânimo diante dos fatos.

Não preciso enumerar os fatos, a TV se incumbe de reproduzi-los e os analistas políticos de plantão os reproduzem nas redes sociais descontroladamente amplificando o vazio que cresce em torno dos pensamentos e das emoções.

Sou educador, lecionei História nos primeiros anos da década de 90 quando o muro de Berlim foi destruído sinalizando para minha geração mais liberdade num mundo sem fronteiras. A era da globalização liberal permitiria mais, as tecnologias permitiriam mais, o espirito humano se permitiria mais. A minha utopia particular, como professor, era distribuir os meios de produção que haviam sido negados pra mim – O CONHECIMENTO. Alunos seriam capacitados para superar seus mestres e se tronariam mestres melhores. Em suma, uma educação realmente de qualidade distribuiria renda e faria desse quintal um país de verdade.

Na última década, o sonho de um gigante pela própria natureza desperto de seu berço esplêndido tem sido estrangulado de inúmeras maneiras. No contexto da pandemia, permanecer acreditando em utopias – sonho na linha do horizonte que perseguimos entusiasmados mesmo percebendo que ao aproximar ele se distancia – foi reduzido desejo de manter-se vivo.

Mesmo oscilando entre a apatia e a erupção da ira, encontrar um lugar de gratidão por ainda ter olhos para ver e ouvidos para ouvir é tábua salva-vidas. Se me calo engolindo palavras sujas, posso me considerar privilegiado por ter um minuto de serenidade. É quando encontro refúgio na poesia, quando os sentimentos encontram vazão e posso expressar a dor comum como grito na hora do parto.

Nessa multidão desorientada, encontro olhos que não passam da moldura, não passeiam pelas tintas da paisagem, não cortam t nem pingam i. Olhos cansados sobre boca autofalante, um rasgo no rosto, escuta surda.

Mas eu reparei seu olhar sem margens me atravessando como quadro molhado em tintas de muitas cores, seu olhar me acentua como um til que respinga lilás. Seu olhar ainda faz vibrar em mim uma esperança diminuta, talvez eu possa lavar minhas roupas hoje e fazer um poema.

Se minha alma diminuta tão pequena e gêmea da sua, recolhida no desconforto de poucas certezas, abre o vazio e não para diante do medo, nesse amálgama de credos e carnavais VEJA LÁ E SEJA

 

sabendo que o bem maior é morada do mistério altíssimo inescrutável.

 

 

 

 

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