Macarrão não dá em árvore

Por: Sônia Machiavelli

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A gente tomava sopa em pratos de alumínio amassado - o menino e eu. Era um dia frio e a comida aquecia corpo e alma. Nuvens pesadas, vento cortante, pancadas de chuva tornavam o final de junho um tanto custoso. A escola acudia na medida do possível alunos da periferia degradada. Contando com as habilidades da merendeira, elaborava-se dieta pensada para forrar estômagos que muitas vezes só teriam comida de verdade dali a 24 horas. O governo mandava carne de soja, fubá, macarrão, milho de canjica, leite em pó, concentrado de carne e outros ingredientes com dilatado prazo de validade.

Professores comiam ali também, cantina adaptada na quadra esportiva. A maioria deles morava longe e perdia no trajeto mais de duas horas; conforme o trânsito e o tempo, quatro. Então, partilhávamos a comida e achávamos que era oportunidade boa de estreitar relacionamento com as crianças. Elas quase nada tinham de seu, a não ser o lugar abafado e caótico dos apartamentos dos conjuntos habitacionais onde moravam; e a escola- ampla, limpa mas árida por conta do excesso de concreto. Naquele tempo o cimento já tomava conta de tudo, derrubavam-se sem necessidade árvores e arbustos. Ninguém pensava em plantar flores nos canteiros ainda cercados de tijolos enegrecidos que um dia deveriam ter acolhido algum verde. Eu sentia falta de grama, de flores, mas tinha por impensável falar em jardim quando nem para o essencial havia recursos. Meus desejos seriam classificados de bizarrices.

Então tomávamos a sopa, o menino em fase de alfabetização e eu aprendiz de outras linguagens. Ele era esperto, mas freado pela falta de interesse dos pais, criaturas que me lembravam os personagens rudes, calados e ressequidos de Graciliano Ramos. Conversa vai, conversa vem, elogiou o prato, mistura de feijão, legumes e macarrão- daquele chamado ave-maria, cortado miudinho. Estava mesmo gostoso, eu concordei. Foi quando ele me perguntou se eu já tinha visto pé de macarrão. De início surpresa, não quis deixá-lo constrangido e fui pelas beiradas. Por que me perguntava aquilo?- falei. Ele então respondeu que gostaria muito de saber como era a tal árvore, como eram suas folhas, e se os macarrões nasciam como os feijões. Seu irmão mais velho havia levado um dia para casa um grão de feijão brotando, aninhado em chumaço de algodão embebido em água, experiência de aula de ciências.

Firmei impressão sobre sua inteligência. Na impossibilidade da experiência concreta, ele criava. E isso era importante. Um pé de macarrão, um macarrãozeiro... Fiquei imaginando por segundos como seria essa espécie se acaso existisse no reino vegetal. Depois, usando sua linguagem, contei-lhe sobre coisas que se comiam e não vinham diretamente da terra como os feijões, o arroz, o milho, as frutas, etc. Às vezes alguns produtos passavam por processos e se transformavam em alimentos diferentes. Era o caso do trigo, que nascia como o feijão, da terra, mas virava farinha e depois outras coisas- pão e macarrão, por exemplo. Ele me olhava interessado. Na aula seguinte levei-lhe um volume de culinária que mostrava vários tipos de macarrão e como eram feitos. Ele ficou tão encantado que quando me pediu que lhe desse o livro, não soube dizer não, apesar de ser um livrinho que gostaria de manter comigo.

Transcorreu muito tempo desde então, final do século passado. Por razões diversas o episódio não foi deletado de minha mente; às vezes reaparece. Aconteceu na semana passada, quando fiquei sabendo de outra criança, também de uma metrópole mas do nosso tempo, que nunca tinha visto galinha viva e questionava sobre filés de frango congelados comprados em supermercados.

Há coisas que povoam o imaginário das crianças e nem sempre são verbalizadas, por falta de liberdade, de oportunidade, de confiança no próximo. Confesso que sinto certa nostalgia ao resgatar a cena onde pude explicar a inexistência de macarrãozeiros no reino vegetal. Onde estará aquele menino moreno de olhos incrivelmente brilhantes? Pode ser que tenha desaparecido de forma anônima no bairro pobre e violento. Pode ser que a vida o tenha encaminhado para o setor de pastifício, já que seu interesse pelas massas era algo peculiar. Pode ser que tenha se transformado em escritor, porque demonstrava evidente capacidade de criar.

Estava precisando escrever sobre esse menino do qual nada mais soube nem saberei, e que só resiste mesmo é na minha imaginação. O leitor, que por acaso chegou até aqui, há de ter também esse tipo de lembrança que parece dar razão a um ditado oriental segundo o qual “a memória não perde aquilo que merece ser salvo.”

Inté.

 

 

 

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