Lilith

Por: Sônia Machiavelli

410610

Acometem-me às vezes uns desejos doidos, desses desconsiderados pelas pessoas normais, as sensatas. Anseio o voejar, diante de minha janela, do menor beija-flor do mundo, o que mede seis centímetros e pesa vinte gramas e vibra e retrocede rápido e risca de vida verde o ar. Almejo o pouso imponderável no meu braço de uma borboleta toda malva, essa cor indecisa entre o rosa e o violeta, etéreas asas que nenhum artista reproduz, só torna verossímeis. Sonho um peixe exíguo, apenas ciclâmen circular, traço vivaz rodando o aquário sem cessar, como se a boca alcançasse a cauda. Descubro um vagalume que me diz no seu código intermitente, fosforescente, que é tão bom jazer na relva.

Ouço trinados de pássaros sendo levados para o oeste e aspiro notas aciduladas se desprendendo dos limoeiros quando a manhã é só anúncio. Procuro o desabrochar das humílimas urzes que brotam até nas rachaduras dos rebocos ou entre as pedras da calçada. Descolo um vivo grão de romã e o deponho na palma de minha mão, tornada de repente almofada para joia: uma matéria túrgida, rósea, suculenta e brilhante alimenta um pulsar futuro. Procuro por toda parte a rútila gota de orvalho e a encontro sobre a folha recortada e firme da hera que se agarra à pedra para sobreviver. Disputo duas pitadas- uma de ouro e outra de sal, só para libertá-las. Devagar, uma ao léu, dourando o ar no seu leve percurso; outra ao céu da boca, para me remediar da insipidez das horas. Exijo punhados de especiarias para colorir as mãos, as faces, os dias: amarelos, laranjas, vermelhos, ocres, terrosos tons. De açafrão, gengibre, anis, canela, pimenta, cravo.

Nestes dias em que me quedo amorfa, gelatinosa, urge em mim o antes: vago em busca da alga vermelha, da alface-do-mar, dos vegetais aquáticos sem raízes, sem caules, sem folhas; investigo o úmido musgo das pedras: onde? Perscruto em vão os seus estômatos para apreender o instante em que a clorofila bebe a luz e com ela transforma o gás carbônico em açúcares. Busco o mel antes do favo, antes da fera, ainda no pólen das flores, à espera do voo da abelha. Persigo o fio anterior ao casulo, enquanto só promessa nos galhos flexíveis das amoreiras, no aguardo da boca voraz do bicho-da-seda. E intuo outra vez o óvulo no seu caminho morno e aveludado, ao encontro da vida; e depois já ovo, já mórula, o antevejo nidando para desenvolver o que em si já foi predestinado: onde? onde?

Mas há momentos em que desperto outra, como se mergulhada numa sopa de quarks e glúons, o caldo primeiro. Então me vejo muito pequena, talvez liliputiana- quem sabe só Lilith? Só Líli? Ou apenas conformada às minhas ínfimas dimensões de ser mortal. É quando me sinto pertencente a outros reinos. Viro planta, minério- na tentativa de descobrir a guardiã da vida.

(Trecho de “Jantar na Acemira”, que publiquei em 2005)

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras