Para alterar a rotina...

Por: Maria Luiza Salomão

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Altera rotina quem tem disciplina e disposição para criar outra. “Mire e veja”. Tanto agito pré-pandemia! Era um tempo do ‘sempre cabe mais’, sem precisar o quê, tempo de urgências. Sem a dimensão pontual da necessidade, com a sensação de que se fazia pouco do necessário. Sem liberdade.
 
Disciplina é fundamental para o uso do tempo. Urge não desperdiçá-lo, nem ser escravizado pelas contingências do quê e do quanto fazer com ele. Eleger o tempo restrito, ocasião e duração, demanda capacidade de aprender duas tarefas psíquicas – esperar: nada acontece segundo nossos desejos; renunciar – eleger o que não e o que sim, estar/ser, neste momento.
 
Aprender a esperar demanda reconhecer os limites impostos pelas minhas deficiências e pelas deficiências alheias. O que não tenho poder de alterar.
 
Aprender a renunciar demanda tomar decisões. Decisão é sentimento complexo: ter consciência das perdas que a decisão propõe e sabedoria para discriminar a extensão significativa para realizar meus propósitos; a intensidade dos desejos e o que se me dispõe satisfazê-los.
 
Alterar rotina impõe crescimento mental: ser. Mais do que fazer acontecer. Sair do automático. Assumir responsabilidade pelas subidas e descidas nos voos planejados, eventualmente pelas quedas. Saber prognosticar procedimentos e/ou seguir o fluxo muitas vezes, aprendendo a flutuar/errar.
 
Quem não negou a pandemia; quem se responsabilizou por si e pelos outros – teve que alterar a rotina. Aprender a se comunicar pela tela do computador. Cuidar da sobrevivência, reduzir despesas, minimizar riscos. Adaptabilidade aos instrumentos à disposição para trabalhar. Principal: desenvolver empatia e compaixão por quem não tem privilégios.
 
Ampliar a amorosidade: sem ela, disciplina é prisão. Criatividade é ilusão. Conviver: intimamente/desafiadoramente. Reconciliar consigo mesmo: adoçar a solidão.
 
Alterar rotina é abrir a alma: pode doer. Mas a alma acresce e agradece: flexibiliza, e se reinventa.

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