O embrulho

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Dezesseis anos, praticamente uma moça.  Fora criada com todas as vantagens da geração pós-setenta. Muitos muito.  Mimo, carinho,  papo, liberdade – com responsabilidade. Muito tudo. Ora parecia adulta, ora reagia como criança de dezesseis meses. Prepotente: educação dá resultados diferentes em diferentes pessoas. A mãe afirmava: igualzinha à tia, irmã do pai, evidentemente.

Pois não é que numa tarde a filha – única mulher no meio de irmãos homens, foi vista na varanda com embrulhinho na mão, que virava e revirava, como se lhe queimasse os dedos. A mãe passava à sua frente, ela silenciosamente a acompanhava com os olhos. A mãe voltava e a mocinha a encarava petulantemente. Pensava no quê? Já se incomodava a mãe.

- Mamãe!

-Sim?

-Eu preciso falar com você. Sério!

(Ai, Jesus! Esse embrulhinho na mão dela, são anticoncepcionais, certeza! É o do tamanho exato das pílulas que eu tomava, como era mesmo o nome delas? O pai vai me matar! O discurso dele de liberdade sexual é só para os meninos, a filhinha dele é intocável! Vem confusão por aí, pressinto!)

- Fala, meu anjo. O que você quer? 

- Mamãe, você sabe quantos anos eu tenho, não sabe? Dezesseis, não é? Já sei o que quero, sou responsável: em outros países, na minha idade, as pessoas dirigem carro. O reconhecimento da responsabilidade do jovem é geográfico? É? Não acho justo. O que é bom para os jovens de lá, é bom para o jovem de cá. Já posso até votar, não é?

(Ai, Jesus! Ela raciocina! Ela pensa, logo existe! Tira conclusões! Não    demora vai dizer que o direito ao sexo é tão dela quanto o meu – casada no papel e tudo.  Ela vai afirmar que é responsável e que não é justo dirigirem a vida dela, impor determinações! Eu vou morrer!)

- É filha. Já pode votar, mas não vai. Seu título de eleitor não ficou pronto.

- Presta atenção, mãe. Estou falando num sentido mais amplo! Estou dizendo que já tenho reconhecida minha responsabilidade civil pelas autoridades constituídas do país!

            (Eu sabia! Eu sabia! Agora ela vai dizer que não sou dona dela!)

- Desculpa, filha, às vezes sou meio lerda mesmo. Realmente, você já pode votar. Já é reconhecidamente cidadã brasileira!

- Pois é, mãe. Já sou quase autônoma. Já sei o que quero: você nem me “manda mais”...  Com relação a alguns atos e atitudes eu mesma respondo... Sexo,  por exemplo, se eu quiser fazer...

- ... “Se você quiser fazer” ... qual é menina? Pra você fazer sexo, como diz, é fundamental a gente amar, a gente...

- Calma, mãe! Faz discurso, não! Me deixa falar, por favor!

(Bem feito pra mim! Quem mandou levar a sério aquelas regras de quem a gente nem sabe se teve filhos!  “Dê liberdade a seu filho; deixe seu filho crescer de acordo com sua personalidade; evite limitar o horizonte do ser humano; seu filho é gente! Conflito? Conflito é esse meu agora! Ai céus!)

-Você sabe muito bem que não faço besteiras, você conhece minha personalidade e, afinal, você tem ou não tem confiança na educação que me deu?

(Entendeu, criatura, a encrenca que você mesma armou? Tá aí, ó, a   oportunidade de você deitar e rolar nas suas teorias! Chegou o momento de você colher os bons frutos da educação moderna que deu a ela! Você não questionou a educação que teve? Não ajudou a gritar que mulher é agente e senhora de seus atos? Pois bem, mãezinha, deixe sua filhinha crescer!)

- Sabe, mãe? Eu quero a chave da porta de casa!

Enquanto falava, mexia e remexia o estranho embrulhinho nas suas mãozinhas... 

(Agora ela vai  chegar quando bem entender. Agora ninguém mais a segura. Falo de preservativos? De promiscuidade?)

- Negativo, mocinha! Quando você chega, eu estou acordada!  E você pensa que dormirei tranqüila sabendo que você está por aí?

- Não quero nem saber, mamãe! Eu quero a chave de casa!

(Vou morrer! Não, vou só desmaiar, vou adiar esse papo aranha. Vou correr! Não! As favas esse papo-aranha! Não! Chega de discurso de liberação. Vou apelar!)

- Espera aí! Quer, pra quê? Quer fazer o favor de explicar direitinho?

E a filha de dezesseis anos rodeou-lhe o pescoço com os braços, pegou-lhe mecha dos cabelos da nuca, enrolou-os como quando queria alguma coisa e sussurrou:

- Mãe, eu ganhei um chaveiro lindo e não tenho nenhuma chave para pôr nele! Dá a chave de casa pra mim, mãe? Dá, mãe? A do meu quarto sumiu...  

- Cadê o chaveiro? Perguntou a mãe, desconfiadíssima.

-Tá aqui, mãe. E mostrou o misterioso embrulhinho.

 

 

 

 

 

 

 

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