Autoexílio

Por: Maria Luiza Salomão

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HÁ perfume de eternidade neste isolamento social. Olhar da janela e ver a cada dia uma moita de azaleias abrir em rosa; zelador aguar plantas, limpar a piscina vazia, toda manhã, pontual. Aviões na rota de aterrisagem: 6H30 começam, de onde virão? De que países, o que trazem - mais vírus, mais mortes; retornam aqueles retidos pela pandemia em algum canto do mundo?

Eternidade em sons, cheiros, e olhares; em lembranças de tempos e lugares: gestos, sorrisos, ausências; o tempo congelado; o tédio. Tudo se repete. As roupas, as pantufas desgatando, arrastadas pelos cômodos, dias inteiros.

Tudo é novo. A situação, claro! Uma guerra surda. Invisível, se não ligamos a televisão; se esquecemos de consultar o celular. Uma guerra no dentro.

Silêncios estranhos.

Sexta, um recém nascido completa um mês de vida, filho de minha filha.

Nascemos vulneráveis, precisando dilatar pulmões, estômago, intestino. Despreparados, sozinhos. Desamparados. Sensações assustam – líquido escorre pela garganta, gases no pequenino estômago, sons bruscos, toques acionam rápidos reflexos. Sonhos, entre beicinhos e sorrisos!

O pequeno se contorce, desconhece a fonte da dor que o faz agitar-se, chorar/gritar. Não sabe o dentro/fora – a origem do leite que acalma a fome e o livra de um espasmo dolorido: a fome. Ele e o mundo: um só.

Vai aprender que, para sobreviver, depende absolutamente de alguém.

Canto o que sei e o que não sei de acalanto: invento palavras em tom de embalo. Ele se acalma: por que não? Plantas, bichos são capazes de ouvir músicas, de responderem ao som musical das nossas falas. Se entendem o sentido, o significado, ninguém sabe. Não falam em resposta, mas correspondem. Em choro ritmado, entoa lamentos, beicinho sentido, o corpo se entrega ao canto: responde. Dorme, pequenino, sono de paz.

Eterno instante: pacificado o mundo.

Tudo se repete/renova. Eterna mente, encanto.

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