A mulher que não existe

Por: Sônia Machiavelli

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Se há uma coisa que me anima em relação à literatura produzida em nosso país neste momento de desconstrução da cultura tal como a vemos, nós que permanecemos humanistas, é o fato de que os que se sentem tocados pela palavra literária continuam a registrar em livros o que gostariam de dizer. Assim, quando recebo obra de iniciante, a chama da esperança se acende. Mais ainda quando a autora pertence ao meu grupo de relacionamentos que, se hoje está restrito às redes sociais, já teve no passado muita presença física. É o caso de Soraia Veloso, que trabalhou por alguns anos no “Comércio da Franca”, onde deixou só boas lembranças. Ela me encaminhou em bonita embalagem e com dedicatória carinhosa seu primeiro livro de ficção, cujo título está em epígrafe.

Soraia é batalhadora e sua história de vida o leitor pode acompanhar na apresentação que abre o conjunto de “cronicontos”, neologismo com o qual a escritora Bárbara Rosa se refere ao gênero dos textos no prefácio. Realmente, foi um bom achado para classificar ( ah, essa mania que não perdemos... ) os escritos da autora - “paulista de nascimento, francana de coração e um pouco mineira” como se confessa na contracapa. Doutora em Serviço Social, professora universitária na UFU, vencedora do “1º Prêmio Juntas Transformamos”, do Instituto Avon (2018), pelo combate à violência contra a mulher, tem diversas publicações na área acadêmica. No âmbito da ficção ,”A mulher que não existe – e outras histórias” (de capa sugestiva assinada por Regina Célia Ribeiro) é a primeira.

Usando o pronome “ELA (s)”, com maiúscula, para nomear todas as protagonistas, a autora conta em terceira pessoa treze histórias de mulheres diferentes em tudo entre si, e no entanto unidas pela essência do feminino que costuma misturar coragem e delicadeza, mistério e sensibilidade. A maioria das mulheres que descobrimos nas páginas leva vida marcada por carências, faltas, dores. Uma precisou abrir mão da maternidade porque foi violentada aos 13 anos. Outra mantém vida dupla de operária e garota de programa a fim de dar conta do sustento dos filhos. Para ELA x, o envelhecimento se agrava com lembranças melancólicas do passado. Para ELA y, a morte de um filho planta no peito a dor que não tem tamanho nem fim. Mas há personagens de vidas mais amenas ou menos trágicas. Uma executiva de sucesso tem um insight feliz lembrando-se de sua avó ao olhar o jardim que esta havia cultivado. Certa jovem resgata com ternura junto ao mar antigos conselhos da mãe sobre o perigo das águas. Um casal hétero se conhece num sanatório e cria vínculos amorosos que duram uma vida. Duas professoras se reencontram na velhice e assumem amor antigo até então não revelado. Aparece também a viúva que se entrega serena às funções de mãe e avó como se apenas lhe restasse tal destino. A moça que as circunstâncias tornam mãe dos irmãos e da própria mãe e sente-se bem ao pensar na sua luta para preservar unida a família. A mulher de um pedreiro, que nunca terminava a própria casa, decidida a viver uma experiência menos inacabada. O “croniconto” escolhido para título do volume fecha o livro e trata de tema grave que veio à tona como um dos efeitos do isolamento social que a

pandemia do novo coronavirus nos impôs. A mulher que não existe é aquela que veio ao mundo num contexto de tanta precariedade que não tem certidão de nascimento e por conta disso não possui qualquer documento. Torna-se, portanto, um ser invisível que sofre as dores de toda vida humana mas não consta de nenhuma estatística. Trabalhadora em lixões de áreas urbanas degradadas, ao procurar legalizar sua presença no mundo encontra mil dificuldades e se pergunta a respeito de sua não-existência: “Mas como? Eu estou aqui! Me levanto todos os dias, como, durmo, trabalho!”

O final deste curto, e no entanto abrangente, relato demonstra o que devem sentir os mais de três milhões de brasileiros, metade mulheres, que se encontram na mesma indigna e absurda situação de não serem reconhecidos como cidadãos porque não há um papel timbrado que confirme isso. São pessoas sem uma identidade. Tem coisa pior? Por sua pertinência no momento que vivemos, o texto “A mulher que não existe” merece ser expandido pela autora, que revela preocupação com o social e gosto pela palavra literária.

Ler tem sido um recurso importante para suportar o isolamento social que já passou dos cem dias. A leitura do livro de Soraia Veloso pode despertar um sentimento de identificação em leitoras que talvez se sintam solitárias em suas experiências. E para as que não se vejam refletidas, um possível e desejável sentimento de empatia servirá para ampliar a visão dos empecilhos e das condições que não permitem a milhares de seres do sexo feminino fluir em condição de igualdade com os homens. A carga das mulheres parece mais pesada na travessia da vida.

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