Pombas do bando

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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João Eli tinha uma carabina de chumbinho que ganhara quando criança. Fazia uso dela, há muitos anos, para caçar pombas do bando e outras aves indefesas e inocentes que exerciam seu direito de ir e vir pelos ares, quando quisessem, livres e alimentando-se sem a ajuda dos homens. Foram criadas por Deus, em Sua sabedoria plena. Certo dia, bem à tardezinha, um bando delas por serem gregárias pousaram todas juntas, em um galho de mangueira próximo dele. Mirou bem direto nelas e atirou. Nenhuma caiu e todas voaram rapidamente. João Eli não se importou, aquilo já se tornara habitual e fazia parte do divertimento; nem havia, ainda, a proibição de caçar animais silvestres. Perto dali, um de seus vários irmãos (as famílias rurais costumavam ser numerosas naquela época) trabalhava carpindo uma roça de milho, quando um bando de pombas pousou nuns galhos secos, quase ao seu lado. Imediatamente, pegou o cabo da enxada e mirando as pombas, simulou atirar, imitando o som de um tiro, pensando que se fosse uma espingarda teria acertado muitas. Para seu espanto, uma das pombas caiu e estava sangrando, cheia de chumbinhos. Como era possível acontecer aquilo, perguntava-se, correndo em direção à casa, com a pomba na mão. Quando se aproximou, gritou:

“- Castigo, pecado, mistério, perdão”, pois sabia que as aves do céu tinham nascido das mãos divinas e o homem não deveria matá-las.

Logo João Eli chegou e contou que tinha atirado numas pombas do bando e que elas tinham voado. Concluíram que aquela pobre avezinha tinha sido vítima do irmão, conseguira voar até lhe faltar o fôlego e cair sem vida.

Os dois irmãos são conhecidos como narradores de “causos”, com veemência e exatidão. Muitos não acreditaram, mas será que a possibilidade de ser verdade existe?

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