Da distopia ao mundo que vi

Por: Rodrigo Reis

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Hoje, no aconchego do lar, sonhei... Não! Não um daqueles sonhos que se têm enquanto dorme, mas um destes acordados mesmo. Um lampejo constituído de uma força vital, incógnita, que subsistem também no já alastrado micro-organismo, singelo, simples em sua biologia, a que apelidamos "Coronavírus".

E antes de adentrar no sonho, é importante que se diga: inexiste batismo mais oportuno a ele. A tradução da simplicidade da vida - enquanto um vírus -, e que arranca a coroa de espinhos do narcisismo humano, evidenciando nossa arrogância e nos coagindo à experiência da humildade, diante da nossa total ignorância da charada da existência neste Universo...

Eis então que, em súbito escorrego, como se precipitasse o tempo, mirei o futuro, após o período de confinamento. As cidades estavam vivas. O comércio reabria as portas. O ar-condicionado dos escritórios ligados. As máquinas na indústria ecoavam o som do capital vivo. A sociedade retomava à sua dita normalidade.

Mas ali, eu, observador, estranhamente sintonizava qualquer coisa agudamente diferente.

Após espaço de reflexão, sem que seja possível precisar-se o tempo, saltei impressionado com a solução da charada. Restava claro: as pessoas traduziam o selo de uma transformação! Havia algo de belo nelas. Capturava-se uma atmosfera de nobreza, da qual palavra alguma seria talentosa o bastante para descrever ou traduzir.

É que as pessoas afinal puderam, colhendo os frutos semeados no decurso da reclusão social imposta, elaborar íntimas manobras de alteridade. O ócio do confinamento catapultou reais pensamentos acerca do milagre que é a vida, proporcionando verdadeiros exercícios de análise de si mesmos, a partir do espelho de outros.

Finalmente, os seres humanos compreenderam que, para a vida, não há fronteiras. Não existem linhas-miragens traçadas para diferenciar indivíduos, posicionando-os uns contra

outros. Perceberam que as dualidades - homens e mulheres, pretos e brancos, ricos e pobres - eram simplificações inférteis e que todos foram, indistintamente, afetados pelo vírus-vida. Ganhou então chance a virtude das múltiplas combinações, que tornam cada de nós singulares por esta Terra.

E a noção do tempo mudou. O entendimento da morte como algo vivo e próximo reordenou prioridades. Os amigos se encontravam. Amores não foram mais adiados. Parentes se reuniam todos os dias. Nada, absolutamente nada importante, deixava de ser feito devido à exiguidade do tempo.

Às famílias foi então dado o direito de se despedir, juntas e unidas como nunca, dos entes queridos que partiram. Elas viveram, desta vez genuinamente conectadas, o luto das inestimáveis perdas que lhes foram impostas. Puderam, enfim, sentir a saudade.

O amor reinou nas ruas. Havia festas por todos os lados. As pessoas se abraçavam e beijavam, despidas dos recalques outrora exigidos. Reais conexões se formavam e desformavam, fluidas, sem o peso do ego e dos medos. Havia, simplesmente, calor humano.

Paixões intensas foram vividas, porquanto o medo de viver e confiar uns nos outros se esvaiu. Amantes brindavam suas vidas ao bem-estar de seus pares, conscientes de que eram, enquanto ímpares, plenos.

Sonhos eram perseguidos por todos. A alteridade e o pensamento no próximo trouxeram consigo, oportunidades a todos. Radicais mudanças foram promovidas nas economias dos países, que tinham novos líderes capazes de agir somente pelo bem comum.

Em êxtase, dominado pelos sentimentos que me envolviam, num milésimo de segundo, volvi ao meu lar. Em mim, morava resoluta convicção do que presenciei. Aquela era a mais real projeção do que desejo para o mundo. Revisitei a tatuagem que cunhei em meu braço e em minh’alma, onde mora uma música que me é. Grato por saber manejar violão, o liguei com o amplificador no máximo, deixando que o som tomasse conta de tudo. Em mim, você e em todos nós, reside o desafio de se deixar ser. Brindo por ele à vida que vi, esperançoso da possibilidade de um lampejo deste futuro.

A mudança, qualquer que seja ela, começa sempre por nós mesmos.

 

Cantando, seguimos em frente!

"You may say I'm a dreamer

But I'm not the only one

I hope some day you'll join us

And the world will be as one"

 

John Lennon

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