Fazenda que alicerça

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Foi no começo da década de oitenta que soube da existência de um escritor chamado Oscar Kellner. Parece-me ter sido o Mauro Ferreira quem nos aproximou. Foi na Primeira Semana do Escritor Francano que vi um trabalho do Kellner. Eu ainda era muito conservador, por isso minha surpresa foi enorme. Pareceu-me uma coisa demasiado esquisita aquele (Re) lógicas - poema-processo já então premiado e que ficou exposto no antigo prédio do Banco do Estado de São Paulo. Se a falha memória não me trai, como costuma fazer amiúde a bandida, peças de relógio, de maquinaria, faziam parte do conjunto pendurado na parede, ao lado de um poema de Zulíria Minicucci. O que sei com certeza é que o Oscar Kellner já era conceituado como artista. Fora citado por crítico estrangeiro como um dos pioneiros no Brasil do poema-processo. Tempos depois nos aproximamos, li os originais de livro seu. Achei o trabalho de suma importância, mas não consegui convencer o Oscar a publicá-lo. E o escritor sumiu entre rios e serras das minhas Gerais, buscando inspiração maior, talvez. Um belo dia o poeta Calunga me procura entusiasmado. Descobrira um artista nos arredores de Delfinópolis (MG), onde estivera com os companheiros do grupo Bicho-de-pé. Era o Oscar. Depois, muito antes de a rasteira divina me escurecer a escrita, li os originais de seu livro de contos Fazenda Interior. Fiquei maravilhado, à época, com o livro todo, mas sobretudo com dois contos que me ficaram. Um falava de cobras, outro, da limpeza de um rego d’água. O tempo abriu e fechou porteiras muitas. E não é que, dias destes, ao me lerem alguns contos daquele livro, fiquei maravilhado? Tão fascinado como ficara anos atrás. Não resta dúvida. Somente certezas há. O Oscar Kellner é um contista excepcional. O lançamento de Fazenda Interior é demasiado importante porque o livro do Kellner é tijolo de aço que se fixa nos alicerces da nossa literatura.

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