Conversa de comadres

Por: José Antonio Pereira

Marina Garcia Garcia


 

E’então, menina, faço um peixe que todos adoram...

A conversa ia assim quando cheguei. Fiquei ali, ouvidos atentos.
—Mas lá em casa quase ninguém gosta de peixe ...
—Não, mas este é especial, você tempera, coloca num saco plástico, amarra a boca e de vez em quando chacoalha.

Percebi que os olhos da outra corriam de um lado para outro, procurando uma saída. A que falava não percebia o desinteresse daque ouvia; mesmo assim, continuava com um ar professoral:
— Então você faz uma caminha de cebola...
—Ih! A fulana não gosta de cebola.
—Você faz pedaços grandes, é só tirar depois

E continuava a dar detalhes do preparo, de como embalar , de quantos minutos deixar no forno. A outra já não escondia o enfado. De vez em quando olhava para mim tentando puxar assunto. Fingi não entender e continuei na minha posição de observadora, queria saber em que aquilo ia dar. Vi que a ouvinte bocejava e, tagarela, não se dava por achada. Por fim, terminada a receita, a outra disse:
— Muito bom! Muito bem explicado!

Segurei a gargalhada. Meu Deus! Como poderia ser tão insensível aos sinais das interlocutoras? Ambas senhoras de idade, que deveriam andar carecas de fazer pratos e mais pratos diferentes ou comuns... Mas a faladeira prosseguia como a ensinar o beabá a uma criança.
—Então, também tem aquele empadão goiano que é uma comida dos deuses. Você cozinha o peito de frango...

A outra fez um sinal para alguém e foi se levantando.Rapidamente olhei para a direção à qual ela se dirigia e não vi ninguém.
— A conversa tá muito boa, mas o beltrano tá me chamando, a gente se fala depois, tá?

E foi embora. Ficamos nós duas. A tagarela chamou-me a atenção:
—E você, meu bem, gosta de cozinhar?
—Não, prefiro comprar tudo pronto.
E ponto.

A propósito, fiz o peixe. Ficou realmente divino!

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