Fratello Devoluto

Por: José Antonio Pereira

Chiachiri Filho


 

Na esquina da Rua Homero Alves com a Voluntários da Franca, existia uma loja especializada na venda de peças para automóveis. Denominava-se Gato Preto. Logo acima do Gato Preto, ficava o bar do Gildo.

Gildo Nalini , pessoa muito simpática, tinha os traços fisionômicos bem acentuados: olhos grandes, nariz grande e uma boca grande ostentando sempre um largo sorriso.

Seu bar era movimentadíssimo, principalmente depois das 5 horas da tarde. Freqüentavam-no, dentre aqueles que me lembro, o meu pai, o Grisi, o Azarias, os Lambert, o Alencar, o Borges, o Miguel. Miguel, cuja fábrica situava-se bem em frente ao bar, além de produzir sapatos, gostava também de fazer uns negocinhos com automóveis. Moleque ainda, eu ficava no meu canto em silêncio, tomando um refrigerante e escutando a conversa de toda aquela gente.

Freqüentador assíduo do bar do Gildo, Henrique Billi era um italianão alto, forte, gordo, falante, alegre, brincalhão, enfim , um perfeito bonachão. Intitulava-se o Rei do Ferro Velho. Seu estabelecimento comercial situava-se pouco acima do bar do Gildo. Trabalhador incansável, comprava e vendia ferro velho e outras coisas mais. Com isso vivia e se enriquecia. Sua presença enchia o boteco pelo seu corpanzil , pela sua fanfarronice, e pelos causos que contava.

Certa vez, Henrique estava entusiasmadíssimo com a vinda de seu irmão mais moço que morava na Itália. Durante várias semanas, Henrique só falava no fratello. Foi a Santos recebê-lo. Durante mais umas três semanas, ele falou do fratello. Na quarta e quinta semanas, Henrique ficou em silêncio . Na sexta semana, alguém provocou:
— E aí, Henrique, o que você nos diz sobre o seu irmão?

E Henrique, sem esconder sua decepção:
—Niente.
—Mas por que Henrique? indagou outro:
—Per que io não suporto mandriones. O bambino só queria manjare e ficar na dolce vita.
—E cadê ele, Henrique?:

E o Rei do Ferro Velho, ajeitando em sua cabeçorra o surrado chapéu de feltro de abas curtas, respondeu decidido:
—Foi devoluto. Mandei de volta para a Itália.

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