Orgulho, preconceito e impressões

Por: José Antonio Pereira

É surpreendente que aos 22 anos, em 1797, Jane Austen tenha escrito um romance como Orgulho e Preconceito, onde revela impressionante grau de profundidade no que diz respeito à composição psicológica dos personagens.

O enredo coloca em evidência a aristocracia rural da Inglaterra, também ela estratificada, como a sociedade urbana. Os Bennet, família à qual pertence a protagonista Elizabeth, estão abaixo dos Bingley e dos Darcy, mas acima dos Lucas. Com esta paleta de tonalidades sociais à mão, a perspicaz narradora vai compondo o retrato da Inglaterra de sua época. Como sua visão de mundo sustenta-se também em valores atemporais, ergue uma obra que continua lida com interesse até nossos dias.

O talento de Austen para a descrição é do tipo que privilegia o visual como suporte para o psicológico. Longbbourn, onde mora o casal Bennet e suas cinco filhas solteiras, é um tanto caótico: trai a ansiedade de Mrs Bennet, que quer casar as filhas a qualquer preço. Netherfield é espaço elegante mas frio e de caráter transitório: os Bingley estão ali de passagem. Rosing Parking ostenta um luxo pesado que esconde algo depressivo: a rica e arrogante Mrs Catherine de Bourgh domina uma filha frágil e protege um bajulador ridículo. Pemberley é suntuoso, brilhante, sólido, palaciano: ali mora o ínclito Mr. Darcy, que lembra um herói romântico.

Sem Mr. Darcy não existiria relato. Por ele Elizabeth nutrirá antipatia durante algum tempo. Uma série de acontecimentos que se escondem aos olhos da moça precipitam mudanças de afetos quando revelados. Daí ter Austen escolhido inicialmente o título Primeiras Impressões para o romance. Só às vésperas de sua publicação, muito depois, em 1813, trocou-o por Orgulho e Preconceito. Segundo seus biógrafos, provavelmente porque lera o romance de Fanny Burney, Cecília, cujo último capítulo tinha este título.

Darcy, personagem que move a história com seu caráter de homem orgulhoso e reservado, mas justo, desperta até hoje muitas paixões na Inglaterra. Lúcia Brigagão trouxe recentemente de Londres uma bolsa onde se destaca a frase “ I love Mr. Darcy”, com a qual já circulou por Franca. Devo a Lúcia ter conhecido mais sobre Jane Austen: contou-me que esteve num dos lugares onde morou a escritora e me emprestou dois filmes que ajudam a entender a importância desta ficcionista no conjunto de romancistas do período. Um é A Juventude de Austen, protagonizado por Anne Hataway. A história remete ao fato de a escritora, que nunca se casou, ter tido apenas uma única paixão na vida, da qual precisou abrir mão. O outro é O Clube de Leitura de Jane Austen, com grande elenco onde se destaca Lynn Redgrave; por ele se percebe como a obra de Austen continua importante para os ingleses. Ranking divulgado no mês passado num site de literatura a mantém na lista dos autores mais queridos pelos britânicos. Orgulho e Preconceito só perde para O Senhor dos anéis, de outro gigante da literatura em língua inglesa, J.R.R.Tolkien (1892-1973). Manter-se atual depois de duzentos anos é alcançar selo de qualidade na categoria clássico.

Orgulho e Preconceito inspirou outro bom filme, ganhador de prêmios relevantes, com Keira Knightley e Matthew Macfadyen nos papéis centrais, fotografia espetacular de Roman Oshin, preciosa direção de arte assinada por Nick Gottschalk e Mark Swain. Mas é no livro que vamos encontrar a densidade de análise que singulariza Austen. Por definição, a matéria do cinema são as imagens enquanto a da literatura são as palavras. É nos diálogos e comentários que Austen se excede, com uma percuciência assombrosa para quem mal tinha saído da adolescência. Destaco algumas das centenas de frases que podem levar o leitor à reflexão:
“Nada há de mais enganador que a aparência de humildade; não passa por vezes de simples desdém, ou então de uma gabolice indireta.”

“Creio haver em cada temperamento uma tendência particularmente má, um defeito natural que nem a melhor educação consegue ultrapassar.”

“Não posso dizer que lastime minha relativa insignificância, a importância é, por vezes, adquirida a elevado preço.”
Quando Mr. Darcy diz a Elizabeth que “ em uma comunidade provinciana a pessoa move-se em um meio restrito e invariável “, e ela lhe responde que “as próprias pessoas modificam-se tanto que há sempre algo de novo nelas que as torna interessantes pelo resto de suas vidas”, Austen alça vôo muito alto, destes que a aproximam dos grandes ficcionistas do século XX.

Serviço
Título: Orgulho e Preconceito
Autora: Jane Austen
Tradução: Jean Melville
Editora: Martin Claret
Onde comprar: submarino.com
Preço: R$ 20

 

Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras