Uma visita inusitada

Por: José Antonio Pereira

 Clarinha chegou em casa naquela sexta-feira ao entardecer. Verão, sol e calor insuportável além do trabalho estafante, tinham deixado o final do dia pesado. Sentia-se cansada e esbaforida. Abriu a porta de sua casa, arrancou os sapatos e descalça foi logo abrindo também as janelas, para que o ventinho que começava a soprar, invadisse o interior de seu lar, refrescando o ambiente.

Embora a noite já se fizesse presente, ela não se preocupou com sua segurança, mesmo porque, com medo de ter sua casa assaltada, já que esse tipo de crime vinha acontecendo ultimamente, providenciou muros altos com cercas pontiagudas em cima, o que barrava qualquer intromissão no interior da residência. Além do mais, os vizinhos eram muito próximos. Por isso, sentiu-se segura. Encaminhou-se para o banheiro e ficou relaxadamente debaixo do chuveiro, deixando que a água quase fria refrescasse seu corpo cansado e até sua alma.

Terminado o banho, com roupas largas e chinelo confortável, foi para a cozinha, preparou um prato com os alimentos que Maria havia deixado na geladeira, esquentou-os no microondas e saboreou-os com alegria. Satisfeita, ainda permaneceu sentada na cozinha dando asasa à sua imaginação. Sempre que chegava em casa e ficava assim, tão sozinha e tranquila, vinham-lhe as lembranças de Carlos, seu marido por mais de dez anos e cuja vida fora ceifada por um acidente de trânsito. Em outros tempos as lembranças do marido lhe traziam tristeza, lágrimas e sofrimento, mas o tempo passou e agora era com tranquilidade que pensava em Carlos e nos momentos felizes que com ele vivera.

De repente olhou para o relógio na parede e viu que os ponteiros se aproximavam das vinte horas. Não era muito aficionada às novelas, mas como estava a fim de descansar, iria ver os lances dos romances criados por noveleiros, distrair-se. Por isso atravessou a sala de estar, foi até o canto onde estava a televisão, pegou o controle remoto e com um clic a ligou. Voltou, sentou-se em uma poltrona que dava de frente para o aparelho, ainda assistiu ao fim do Jornal Nacional.

Logo começou o capítulo da novela daquela noite e Clarinha ficou vendo o desenrolar das tramas formadas pelo autor. Pensava que se fosse comparar os temas das novelas, os enredos não mudariam muito. Havia sempre uma mulher correndo atrás do amor de um homem impossível e vice-versa; ou um acidente lesava alguém ou uma bandida ou bandido pintava e bordava com outros personagens.

Estava assim distraída com a novela e seus pensamentos, quando olhou para o canto contrário da sala e o viu. Era um homem muito alto e bonito, lábios pintados de vermelho forte, travestido com calça jeans, camiseta colorida, tamancos altíssimos de verniz, unhas compridas cor de carmim. Olhava para ela. A princípio pensou que fosse ilusão de ótica, mas abriu bem os olhos e percebeu que aquela figura exótica era real. Presa pelo medo à poltrona, para disfarçar perguntou:
— O que você faz aí, meu filho?
— Não tenha medo. Entrei aqui para me esconder de uns travecas que querem me matar. Estou apenas me protegendo.

Começou a chorar e disse que não tinha dinheiro para pagar um ônibus para seu bairro, distante dali..

Clarinha, muito assustada, disse a ele que não tinha como deixá-lo ali. Mas poderia dar-lhe o dinheiro da passagem e acompanhá-lo até a esquina, onde havia um ponto de ônibus.

O rapaz assentiu com a cabeça e Clarinha, pegando a bolsa, procurou uns trocados para lhe oferecer. Porém verificou que só tinha notas grandes. Então largou a bolsa na poltrona e se dirigiu à cozinha em busca de dinheiro miúdo. Voltou, entregou a ele, que agradeceu com lágrimas nos olhos. Penalizada, Clarinha acompanhou o moço até a porta, esperou até que virasse a esquina, entrou em casa, trancou a porta, levantou as mãos aos céus e deu graças a Deus por estar sã e salva dentro de seu lar. Voltou a sentar-se. Ao fazê-lo percebeu alguma coisa no assento. Levantou-se e viu que era a sua bolsa. Estava aberta. Qual não foi o seu espanto ao verificar que sua carteira tinha se ido na companhia do visitante.
Chorou de raiva.

 

 

Thereza Rici é advogada

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