Tereza Cristina não é de ninguém

Por: José Antonio Pereira

Uma das mais famosas músicas de Dick Farney, precursora da bossa-nova, é “Tereza da praia” (composição de Tom Jobim e Billy Blanco), com aquela letra genial que mostra a disputa por uma mulher e termina num acordo, mais ou menos assim: “Tereza não pode ser minha, nem tua também, vamos deixar Tereza na praia, ela não é de ninguém.” Foi desta música tão antiga que me lembrei quando, dias atrás, num emocionante e animado reencontro de quarenta anos da formatura da nossa turma do curso científico do IETC, todos que chegavam perguntavam uns pelos outros, alguns menos reconhecíveis pelas calvas ou pelas nevadas cabeleiras.

As meninas têm uma vantagem sobre nós, estão com cabeleiras vermelhas, louras, castanhas, pretas, mas estão impecáveis, não há um único fio branco. Mas satisfeita a curiosidade inicial sobre o colega, uma pergunta era inevitável no final: “e a Tereza Cristina, tem notícias dela, onde está, o que fez?”
A perguntação foi tanta que as mulheres presentes se rebelaram, enciumadas, “afinal, o que essa Tereza Cristina tem?”. O fato é que a Tereza Cristina foi personagem da festa, embora não estivesse presente, só na memória coletiva dos rapazes. Ela era uma morena linda que parecia índia, com longos cabelos escorridos negros. Uma verdadeira Iracema dos lábios de mel. Às vezes, eu voltava com ela do IETC, pois morávamos perto, eu na Júlio Cardoso, ela na Voluntários, perto do Homero Alves. Como o Pedro Tacca, meu amigo inseparável daqueles tempos, jogava um chaveco para cima dela, fui acompanhar uma serenata que ele fez para ela, fazendo um incrível backing vocal, cuja gravação felizmente não há registro para a história da música. Tereza não era de Franca, acho que a mãe veio transferida, era professora de História da Industrial e o pai era gerente de uma transportadora. Logo eles foram embora e nunca mais ouvi falar dela, até o reencontro de nossa turma.

O Zé Omar, ao final do encontro, com a sapiência daqueles que amadureceram, encerrou o assunto dizendo: “é melhor não mexer com isso, deixem a Tereza Cristina como está, quieta no passado e no pedestal da nossa imaginação”. Mas quem consegue ficar quieto depois disso? Espírito (de porco) de Sherlock Holmes, comentei o assunto com meu irmão (cujo apelido é Gago, mas conhecido pelos sobrinhos como tio Google da família, pois dá notícia e lembra de tudo) e ele, para meu espanto, sabia até a cidade onde ela morava e que minha irmã era da turma do Ricardo, irmão dela, até tinha freqüentado minha casa pra estudar.

Ou seja, descobri onde ela está e o que fez. Mas talvez seja melhor fazer como o Zé Omar receitou, pois a Tereza Cristina não é de ninguém, melhor ficar com as boas lembranças dela e daqueles tempos que rememoramos em clima de alegria e confraternização.



 

Mauro Ferreira é arquiteto, escritor

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