Mazzaropi

Por: José Antonio Pereira

Faltam minutos para as sete horas, e Chico Franco entra no salão do barbeiro Arlindo.
- Bom dia, Arlindo.
- Bom dias, Sô Chico,
- Hoje eu sou o primeiro?
- Que nada, Sô Chico. Já fiz a barba do Doutor Joaquim. Por favor, deixa eu pendurar seu paletó aqui. Pode deixar que eu encosto a bengala aqui no sofá. Vamos sentando.
- Obrigado.
- O senhor ainda gosta muito de cinema, Sô Chico?
- Gostava, agora não gosto mais. De primeiro, a gente quase não ia ao cinema. Só tinha o Cine Teatro Santa Maria, lá na Rua Marechal Deodoro, perto da Rodoviária, mas era muito caro. Hoje todo mundo fala que naquele tempo tudo era barato, mas o que ninguém fala é que o dinheiro era muito difícil. A gente trabalhava feito escravo e só ganhava tostões. Aí, em 1948, foi construído o Cine São Luiz, aquele monstro de cinema. Mil e duzentos lugares. Lá na Praça do Hotel Francano. Aí a diversão ficou mais barata, a gente começou a freqüentar o cinema. Depois, quando comecei a trabalhar na Prefeitura, passei a ir ao cinema toda semana.
- O senhor lembra dos filmes daquele tempo?
- Ah, se lembro. Lembro muito bem, eu tenho memória de elefante, lembro tudo. Sangue e Areia, Por quem os Sinos Dobram...Quando passou Marcelino, pão e vinho, todo mundo chorou dentro do cinema, na hora que o Marcelino morreu. Mas o povo gostava mesmo era do Mazzaropi. Casinha Pequenina ficou em cartaz um tempão, e o cinema sempre cheio. Uma vez, a fila para comprar ingresso deu a volta no quarteirão inteirinho.
- E o cinema aqui da Estação?
- Ah, foi o Amélio Calixto que construiu o Cine Santo Antônio, aqui na Rua Frei Germano. Ficava aqui, ao lado da sua barbearia. Eu tenho cabeça boa, não esqueço nada. O filme da estréia foi Scaramouche que ficou passando a semana toda. Eu vi o filme muitas vezes. O artista se chamava Stewart Granger. Era muito bom, mas ninguém chegou aos pés do Mazzaropi. Esse foi o maior artista do mundo. Você assistiu Sai da frente?
- Esse eu assisti.
- E o Jeca ?
- Assisti também.

Eu gostei mais foi do Sai da Frente. Quando a cabrita comeu o dinheiro do Mazaropi, eu até fiquei com dó dele. Mas quando ele chamou a cabrita de Caixa Econômica, eu caí na risada.
- Pronto, Sô Chico.
- Ah, obrigado. Você pode pegar o meu paletó e meu chapéu?
- Está aqui, Sô Chico.

Chico Franco ajeita a gravata, abotoa o paletó, coloca o chapéu, parece aprovar a imagem refletida no espelho enorme. Paga a conta, apanha a bengala, dá adeus ao barbeiro.
- De primeiro eu era freguês do Eurípedes Barbeiro, ali na Rua Simpliciano Pombo, mas ele não está trabalhando mais. Acho que aposentou. Vim cortar o cabelo porque estou querendo ir ao cinema hoje. O Denis, lá da Prefeitura, me falou que está passando um filme bom lá no Cine Odeon. Parece que chama Exorcista. Você está sabendo?

Dói no barbeiro Arlindo o desarranjo na cabeça do freguês, tão conhecido, tão querido naquela banda da cidade.
- Não, não estou sabendo não.
- Então, até outra hora.
- Até, Sô Chico.

Arlindo acompanha o cliente até a porta, acompanha com os olhos a figura que caminha vacilante em direção à Praça Sabino Loureiro.
Chico Franco morou toda a vida naquela região da cidade, onde é muito conhecido. Por isso, à medida que caminha, é cumprimentado pela maioria das pessoas que com ele cruzam.
- Bom dia, Sô Chico.
- Bom dia, jovem.

A cada cumprimento, quase interrompe a caminhada, apoiando-se na bengala e levando a mão direita à aba do chapéu, como se fosse descobrir-se.

Seu vulto desaparece lá longe, enquanto Alcino apanha a vassoura, começa a varrer os poucos fios de cabelos brancos espalhados em torno da cadeira.



 

Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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