Aconteceu num outono

Por: José Antonio Pereira

No dia 20 de março, sábado passado, há uma semana, chegou o outono. Esta estação do ano sempre teve um significado especial para mim, desde criança. E não é apenas porque o clima se torna mais ameno, mas principalmente porque, em verdade, é uma época de transformações interiores. Aí está, para os católicos, por exemplo, a quaresma que os leva à reflexão de pequenas conversões; logo chegará a Páscoa que nos possibilita novo reinício de procedimentos, um renascer espiritual sugerido pelas leituras sagradas.

Mas o outono tem outro significado particular, todo especial para mim.

Devia ter treze anos. Cursava no IETC a terceira série ginasial. Nossa professora de Filosofia, dona M..., cuidava para que entendêssemos toda aquela teoria dada em sala de aula por meio de exemplos práticos. Eram lições e lições de vida, de comportamento, de procedimentos morais que aprendíamos todas as vezes que aquela santa criaturinha nos dirigia a palavra.

Outono de 1963.

As árvores tinham adquirido uma beleza de fogo e as calçadas e ruas da cidade se cobriam de folhas que rangiam sob nossos pés. Ao lado da escola onde eu estudava morava, num casarão de esquina, um médico respeitado na cidade, o doutor Orsoline, se não me falha a memória. No jardim de sua casa uma frondosa árvore, exuberante flamboaiã, destacava-se no visual do quarteirão. De meu banco escolar, dentro da sala de aula, sempre que podia eu espichava um olhar de criança para aquela árvore, e sabia que eu era livre e feliz como um passarinho, preso na gaiola da classe por algum momento, mas que logo às 4 da tarde ganharia as ruas, os quintais, os folguedos, a minha goiabeira tagarela.

Outono de 1963. Nossa professora de Filosofia havia instituído do Dia das Queixas. Instruiu-nos para que apanhássemos algumas folhas de árvore secas nas ruas; que as limpássemos muito bem, sem as machucar, e que as trouxéssemos para a sala de aula. Curiosidade geral.

As farfalhantes folhas caídas da árvore do doutor Orsoline estavam por ali mesmo, fáceis de serem apanhadas. E havia uma lógica: estavam no caminho, entre nossa casa e a escola.

Juntei algumas, coloquei-as entre as folhas do caderno e pus-me a caminhar para a sala. Interessadíssimo.

Chegara a aula de Filosofia. A professora nos avisara que, junto com o outono, época de renovação, havia chegado o Dia das Queixas. Pediu a cada um de nós, alunos, que escrevêssemos numa folha de papel, retirada do caderno, todas as nossas queixas (ainda inocentes, por sermos crianças). Não me lembro das queixas que escrevi, mas imagino as queixas de uma criança de treze anos: insatisfação pelas brigas com o irmão mais velho, o apelido que havia ganhado na escola, gozações de colegas, não saber mergulhar, coisas desse tipo. Todos nós, na classe, escrevemos em silêncio nossas queixas. Contra quem quer que fosse, contra o que fosse. Em seguida, a professora recolheu as folhas de papel, as folhas secas das árvores e misturou-as, dentro de um cesto de vime.

Fomos para o pátio de terra, mudos e curiosos.

A professora de Filosofia fez uma pilha das folhas. Ateou fogo nelas. A fogueira, em torno da qual nos sentamos em círculo e a certa distância, erguia-se em pequena labareda, e com a fumaça que subia aos céus nossas queixas eram levadas pelo ar seco de outono.

Pronto, aquelas queixas... Nunca mais! Poderiam surgir outras, novas, mas as velhas tinham morrido, exatamente como morriam as folhas das árvores no outono!



 

Everton de Paula é professor, escritor, conferencista. Fundador e membro da Academia

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