Perfume

Por: José Antonio Pereira

O passeio era rotineiro. O cão precisava dar a tradicional voltinha no quarteirão. Às vezes, isto é prazeroso para mim, hoje não era o caso. Tanta coisa para fazer e ele parando em todos os nichos, cheirando, fazendo xixi, estourando a minha paciência. Como o caminho era sempre o mesmo, liguei o automático, abriu-se a tela interna e neste alheamento nem percebia o colorido das casas, os carros passando, uma nova flor no jardim...

Entre o andar vagaroso chamando o cachorrinho que insistia em ficar para trás, esbarrei em uma árvore e o milagre se deu: o perfume foi impregnando tudo, assim, sem eu pedir, nem notar direito de onde vinha. Um supetão me trouxe para a vida.

Parei, observei as folhas, o porte pequeno da árvore, a delicadeza das flores, o inconfundível e doce aroma. Inesperadamente, enchendo-me os pulmões de alegria nova, recebi o presente.

Assim como o perfume tenho recebido muitas dádivas surpreendentes: um sorriso amigo, solidariedade, abraços apertados, mesmo quando não estou receptiva a estas manifestações de carinho.

E lembrando Manuel Bandeira: “ E quando eu estiver mais triste/ mas triste de não ter jeito...” quem sabe eu tropece em outra árvore tão terna e perfumada como aquela?



 

Marina Garcia Garcia Pedagoga e professora de Português

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