‘Preciosa’: a vida apesar do massacre

Por: José Antonio Pereira

Preciosa é o título do filme que ganhou evidência no último Oscar, garantindo a Mo’nique o prêmio de melhor atriz coadjuvante. Foi também indicado nas categorias melhor filme, atriz, edição e roteiro adaptado. O romance da escritora norte-americana Sapphire, que inspirou o diretor Lee Daniels, chama-se Push. Reconheça-se ênfase no verbo ou no nome próprio, a história é um recorte realista dos níveis de brutalidade a que podem chegar certos humanos a quem a natureza permitiu se tornarem pais.

Claireece Precious Jones é analfabeta, tem 16 anos, pesa mais de cem quilos, exibe uma fisionomia tensa que deixa transparecer sua alma atormentada. Mora no pobre e violento Harlem, num apartamento sombrio, em companhia da mãe Mary (Mo’nique) que a desqualifica o tempo todo, e do pai que abusa dela e a engravida duas vezes, sob o olhar complacente da mulher. Quando a história começa, o ano é 1987 e Precious faz um retrospecto de seus dias, a voz em off. Uma das primeiras frases a desvelar um desejo é a seguinte: “Quero ser normal.” Ela tem muitos motivos para não se sentir normal, um deles é não saber ler. Com habilidades incomuns para matemática, sofre um bloqueio que a impede de se alfabetizar, apesar de todo o esforço que despende neste sentido.

Ao descobrir que a adolescente está grávida novamente, a diretora encaminha-a para uma escola alternativa, aonde ela chega enfrentando a oposição da mãe, que não quer que ela estude, e os enjôos da gravidez, que vai se deli-neando no corpo disforme. Sua passagem por esta escola, a Each One Teach One, que é definida por uma assistente social como “espaço que mostra uma maneira diferente de fazer as coisas”, será uma experiência decisiva. Com uma professora afetuosa mas firme, respeitosa e exigente, tem início o processo de transformação de Precious. Como coadjuvantes da experiência, estarão colegas de perfis semelhantes, adolescentes pobres a quem a miséria já apresentou suas diferentes faces. Deste contato às vezes prazeroso, às vezes hostil, como todos os relacionamentos cuja linha de equilíbrio é instável, a protagonista aprenderá o que é sentir-se viva, exibirá aos poucos as suas emoções, formulará para si um projeto possível de vida digna. O trabalho solar da professora Rain (Paula Patton), o empenho lúcido da assistente social Weiss (Mariah Carey), o cuidado carinhoso do enfermeiro John (Lenny Kravitz) serão determinantes para a recuperação de Preciosa. É uma história de esperança, como propõe o subtítulo, apesar da extremada violência doméstica e urbana que oprime, deprime, humilha.

Narrando sua história enquanto trilha o áspero caminho de reconstrução de si mesma, Precious faz um retrospecto de sua existência, relembrando momentos em que foi vítima de frases cruéis, agressões físicas, violência sexual, desrespeito em todos os níveis. Enfim, massacre diuturno diante do qual o espectador tende a se perguntar: como alguém consegue suportar e escapar? A resposta a esta pergunta ergue a estrutura do filme enquanto sequência de imagens. Precious usa um recurso para não enlouquecer, não matar, não morrer. Este recurso nasce da imaginação e é o tecido vital pelo qual ela vai conseguir se refazer, como aqueles organismos que podem crescer de novo, ainda que mutilados em sua maior parte.

O diretor Lee Daniels apostou nas falas, nos closes e na transposição de imagens para ir definindo em primeiro lugar este recurso de que lança mão Precious (Gabourey Sidibe) para não sucumbir ; em segundo, o processo de reelaboração de uma vida que parecia fadada à aniquilação. Nota-se um zelo especial com os diálogos, que não têm apenas uma função fática mas atuam como reforço ao que as imagens mostram. Não por acaso, já quase no desfecho do relato, Precious se recorda da resposta de uma colega de classe à pergunta da professora: “O que você entende por inexorável?”

Nas palavras da aluna, Daniels leva o espectador a pensar em muitas coisas. Uma delas é de essencial importância para entender a mensagem deste triste e perturbador filme: inexorável, só a morte. O que está vivo tem condição de mudar. Duas são as premissas para que tal aconteça. Uma é querer a mudança. A outra, aceitar ajuda. Por isso considerei que a palavra push, derivada do verbo to push, empurrar, foi bem escolhida pela autora do romance. Empurrar pede um gesto e traz implícita a ideia de se mover para algum lugar. Quando Precious ouve Miss Rain lhe dizer que a porta da sala de aula se fechará automaticamente em alguns segundos, ela escuta, levanta-se da cadeira e entra. Dá o primeiro passo importante à sua salvação.


Serviço
Título: Preciosa, a História de uma Esperança
Gênero: drama
Direção: Lee Daniels
Roteiro: Geeofrey Fletcher
Onde: Breve nas locadoras e cinema da cidade.



 

Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço

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