A foto do tempo

Por: José Antonio Pereira

Érico e André se conheceram no início dos anos setenta. Amaram um amor sem limites, impetuoso e camuflado.

Érico, aos dezessete anos, quatro a menos que seu parceiro, descobria naquele relacionamento respostas para toda a turbulência de sua cabeça, traduzidas nos abraços e beijos ardentes trocados no retiro a dois, que sempre conseguiam provocar, em noites malucas do acampamento onde se conheceram. Ele era lindo, cabelos loiros encaracolados, medonhos olhos verdes, sobrancelhas riscadas pela natureza, boca larga de constante sorriso de marfim, corpo esguio de nadador naturalmente bronzeado pelo sol da rotineira piscina.

André aos vinte e um anos trazia consigo todas as dúvidas do mundo e fingia ter todas as respostas. Alto, corpo modelado nas várias modalidades dos esportes praticados, rosto ordinário, olhos inquiridores e uma capacidade sexual insaciável, encontrou no parceiro o que procurava: a cumplicidade no sexo proibido aliada ao indispensável sigilo.

Amaram-se loucamente durante mais de ano. Mesmo depois de terem abandonado o acampamento para a vida, encontravam-se amiúde, sempre lutando contra a manhã que teimava em se acender e roubar a privacidade do ato vital, do contato inadiável, delirante e nunca suficiente.

André, amante incondicional da beleza física, não se cansava de descobrir novos encantos em Érico. Sua beleza era inesgotável e renovava-se a cada dia. Quando o bronzeado abandonou seu corpo, sobreveio uma brancura ainda mais sedosa e desejável, que chegava mesmo a brilhar no escuro dos quartos que o destino providenciava. Seus dentes constantemente alvos mais ainda realçavam seu perene sorriso cada vez menos infantil. Os olhos brilhavam cada vez mais curiosos pela vida, procurando sempre por algum alvo indeterminado.

Amaram enfim todo o amor juvenil do mundo. Esgotaram-se, renovaram-se, e, quis a vida, separaram-se.

Seguiram cada um pelo incerto de suas vidas.

André, depois de muito tempo, resolveu ser quem era e não aquele que gostariam que fosse. Continua cultuando sua vaidade física, amando a beleza dos amantes, sugando a vida nas vidas que lhe sugam e vivendo os sobressaltos de sua rotina. Sempre se lembra de seu incipiente parceiro como a pessoa mais bela com a qual se relacionou, concluindo, mesmo depois de todos os anos, ter vivido um lindo, intenso e incompleto caso de amor. Essa lembrança sempre o deixa nostálgico, mas feliz, com a eterna foto do companheiro de noites proibidas cravada na memória.

Semana passada, ao abrir seu e-mail, André foi surpreendido por uma mensagem, cujo remetente indicava o nome de Érico Fernandes do Amaral. Sempre associara o sobrenome Amaral, por causa do parceiro, com “amar all”, ou seja, amar tudo ou todos, numa mistura livre entre o português e o inglês. Teve a insegura certeza de quem era o remetente.Vacilou entre abrir ou não a mensagem. Abriu. O texto amável, nostálgico, tentando ser alegre sendo triste, confirmava o que ouvira dizer sobre o destino dele. Está, há anos, em Paris. Segundo o texto continua sendo alegre, otimista, vivendo da dança. O anexo, anunciando uma foto, fez, uma vez ainda, André vacilar. A curiosidade falou mais alto de novo. Ficou chocado com o que já sabia encontrar. Uma foto sorridente, com o fundo mostrando a Torre Eiffel, aniquilou sua última esperança de um milagre. Os cabelos loiros cacheados estão reduzidos a uma modesta cobertura mesclada por fios brancos. Os dentes de marfim, agora amarelados e sem graça, se mostram num sorriso largo e catastrófico. Os olhos escondidos atrás de óculos escuros podem ser imaginados pela indigência do restante visível.

André ampliou a imagem, vasculhou detalhes e, derrotado, fechou o e-mail. Seus olhos derramaram um choro carpido, sem precedente. Procurou rapidamente uma bebida. Ainda havia gim. Bebeu puro e admitiu aquilo que já sabia. Chorava não pelo estado lastimável de Érico e sim por ter visto sua própria imagem refletida naquela foto otimista.



 

Mirto Felipim Poeta, escritor, observador

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