Viver é também improvisar

Por: José Antonio Pereira

Nelson Rodrigues, gênio da nossa dramaturgia que elevou suas peças a patamar universal criando personagens e contextos bem brasileiros, era apaixonado por futebol. Tornaram-se clássicas as crônicas que assinou nos jornais cariocas e que tiveram o esporte como assunto. Ao tratar uma partida como algo que se atualiza no instante de cada movimento, e na sucessão dos segundos, transcendeu o jogo, construiu significado abrangente para a vida. Milímetro a mais na rede do gol, gesto a menos na grande área, deslocamento impensado no meio de campo, informação errada do bandeirinha, decisão equivocada do juiz - e o rumo da partida se modifica, a história daqueles noventa minutos ganha perfil peculiar. Absolutamente nada se pode afirmar quando duas equipes entram em campo. Por ter esta certeza, de que tudo é incerteza antes do apito final, a comparação entre vida e partida de futebol foi recorrente na obra rodrigueana.

A aceitação desta metáfora nunca foi ampla, geral e irrestrita. Conservadores, burocratas, manipuladores, objetivos (e obsessivos), controladores, centrados, arrogantes, sonhadores (e românticos), autoritários, rígidos (de todos os tipos) costumam se sentir ameaçados diante da possibilidade de que seus planos para as próximas 24 horas sejam arranhados, na melhor da hipóteses, ou subvertidos, na menos incomum delas. Com ridícula pretensão planejam dia, semana, meses, anos, trabalho, férias, relacionamentos, aposentadorias mantendo a firme convicção de que tudo seguirá seu script, o mundo se movimentará para atender às suas expectativas, as circunstâncias devem favorecê-los porque, afinal, eles merecem. Na prática o que se vê não é bem isto. Há forças desconcertantes atuando sobre nós, dentro de nós, frágeis humanos às vezes em demasia orgulhosos e confiantes.

A experiência de um único dia pode mostrar que viver é lutar, é perigoso, oferece riscos, surpreende mais que o esperável, desmente as profecias, humilha os oráculos, nada garante. E só desvela aos poucos os mistérios da empreitada, exigindo grande dose de tolerância, especialmente diante da frustração. Viver pede coragem e uma enorme habilidade na arte de improvisar diante do inopinado, do repentino, do imprevisto. Muitas vezes parecemos jogadores marcados sem piedade, tomados por uma dor, confrontados com situações que precisamos transformar para continuar na luta. Não dá para pensar que isto não estava escrito no gibi, que não era bem o que estávamos esperando, que mudar o formato é difícil e refazer o trajeto é custoso.

O que dá para fazer é improvisar com os elementos de que dispomos, o que não significa agir de forma inopinada. Improvisar na vida tem de ser como no futebol, quando o jogador, a partir de suas experiências e talentos, cria passes, avança, faz gol. Improvisar na vida tem de ser como na música, onde o artista mostra seu número no instante mesmo em que o cria. Em ambos transparece uma associação entre recursos acumulados e uma especial inspiração. Resultados assim alcançados muitas vezes revelam-se mais ricos que os do padrão.

Modificações momentâneas introduzidas pelo intérprete no momento da execução fazem a alma do jazz na música, a magia do jogador no futebol, a superação do indivíduo diante de si mesmo no cotidiano repleto de desafios. São também a maneira estética de mostrar que o presente não é só um passado em potencial, mas principalmente o momento da escolha e da ação, como postulavam os existencialistas.

Pirandello (1867-1936), o siciliano apaixonado por literatura e teatro, que tinha renovado a dramaturgia na Itália com Seis Personagens à Procura de um Autor, mostrou logo depois desta obra que nada é previsível na existência. Contou uma história sem roteiro prévio, interpretada por gente da plateia, na peça que rodou o mundo com o título Esta Noite se Improvisa.

A vida pode ser arte. Ou, numa outra variação sobre o mesmo tema, Assim é, se lhe parece.



 

Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço

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