Vidas nada secas

Por: José Antonio Pereira

A polêmica (já arrefecida) instaurada por setores conservadores sobre uma obra de arte que trata da vida de uma mulher retirante nordestina e sua família para o chamado Sul Maravilha poderia se restringir à qualidade da obra de arte cinematográfica, à direção, à montagem, à atuação dos atores ou à fotografia. Mas, como se sabe, num país tão eivado de preconceitos e desigualdades, a preocupação dos críticos é bem outra, é simplesmente criticar Lula e seu governo. Enquanto uma discussão de âmbito cultural não ocorre, aguardaremos a filmagem da vida e obra do príncipe FHC para a devida comparação, como desta outra história que conheci em viagem recente.

Geraldo, em 1971, saiu de João Pessoa em busca de oportunidades. Já tinha sido retirante de um pequeno lugarejo no sertão paraibano e o pai o tinha levado para a capital nos anos 60. Viajou para o Rio de Janeiro de ônibus, três dias inteiros. Foi morar na baixada fluminense, num lugar que sempre alagava no verão. Trabalhou como servente de pedreiro, fez biscates na rua, foi atendente de um bar até montar uma pequena birosca. Aprendeu a cozinhar e empregou-se como ajudante num restaurante fino da zona sul carioca. Ali, desenvolveu novas receitas e técnicas com o chef francês que liderava a equipe do restaurante e tornou-se um requisitado chef de cuisine.

Mas sua vontade sempre foi retornar para a capital paraibana. O acontecimento decisivo foi a morte da esposa, num parto mal-resolvido em hospital público. Voltou sem muitos recursos, mas com enorme disposição de trabalho. Montou uma pequena empresa terceirizada para um hotel de João Pessoa, o Hotel Verde Green, para fornecer alimentação. Aliás, mania engraçada é essa coisa brasileira de dar nome em inglês e a tradução juntos.

Até hoje me lembro da surpresa que causou a todos da minha turma do IETC e as risadas que demos quando vimos os cartazes do cine São Luiz anunciando o filme “Wanted, o Procurado”, um western-spaghetti famoso nos anos 70. O fato é que o Geraldo emplacou o restaurante no hotel e depois mudou-se para outro, criou uma filial. Casou-se novamente e até hoje dirige pessoalmente o restaurante do hotel. Acabou de fazer sessenta anos. Como tantos brasileiros, como Lula, Geraldo foi retirante nordestino. Conheci-o e sua história visitando João Pessoa e almoçando em seu restaurante. Acho que as histórias de vida neste país retratadas pelos artistas deveriam servir de pausa para uma reflexão sobre as profundas raízes da desigualdade social, do preconceito de classe e da intolerância política e não para mera disputa eleitoral, caso contrário apenas veremos aprofundar os preconceitos, já tão arraigados que nem nos lembramos quando começaram.



 

Mauro Ferreira é arquiteto, escritor

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