Jussara

Por: José Antonio Pereira

A Praça 1º. de Maio é também conhecida como Praça do Trabalhador e Praça da Jussara. Ela é arborizada nas proximidades do início da Rua São Sebastião, por isso aquela parte da ilha da Avenida Integração tem sido, durante parte do dia, praia de aposentados que ali jogam baralho, dominó, víspora... Quem não joga, preenche o tempo sapeando, discutindo futebol, falando mal do governo, atualizando as piadas, relembrando as virtudes do passado, denunciando os descaminhos do presente, o iminente fim do mundo.

Chico Franco não joga, não conta piada, mas tem passado sistematicamente pelo local, nos últimos dez anos. Assim, muitos freqüentadores do local vêm acompanhando o desenvolvimento da sua esclerose mais que os médicos lá do Sassom (Serviço de Assistência e Seguro Social dos Municipiários de Franca).

Muitos o cumprimentam quando atravessa a parte da avenida e se instala à sombra, num banco de cimento.
- Boa-tarde, Sô Chico.

Chico Franco procura conversa com o homem que sapeia o jogo de truco.
- Se mal lhe pergunte, qual é a sua graça?
- Zeca. Sou o Zeca Simão.
- Muito prazer, Chico Franco, seu criado. Ah, menino Zeca, acho que estou ficando velho, não entendo mais esse mundo.
- Que é isso, Sô Chico. O senhor ainda tem muita lenha pra queimar.
- Sei, não, jovem. Sei, não...Veja ali. Estão derrubando o prédio da Jussara...
- Ah, Sô Chico, agora a Jussara tem uma fábrica nova, coisa moderníssima, lá em Patrocínio Paulista. As instalações daqui ficaram obsoletas, ficaram velhas. Por isso mandaram derrubar o prédio.
- Ah, jovem. Qual é mesmo a sua graça?
- Zeca Simão.
- Chico Franco, seu criado. Como eu estava dizendo, eu estava aqui, naquele canto ali, quando começou o tiroteio. Eu vi tudo. Era Dia de Reis, dia seis de janeiro de 1959. A praça estava cheinha, parecia um enxame de gente. Todo mundo que estava na Praça da Estação tinha vindo para cá.O povo começou a jogar pedra, a quebrar tudo que era vidro, tudo que era janela. Os mais brabos queriam derrubar muro, derrubar tudo. Tinha mais gente gritando que no jogo da Francana com o Botafogo. Aí a polícia não teve dó, abriu fogo com a metralhadora. O Bertoldo levou tiro na barriga, um rapaz que vinha da casa da namorada levou tiro no peito, foi levado para o hospital de Ribeirão Preto. Não cabiam na Santa Casa e no Samdu todos os feridos. Era muita gente machucada. Não morreu ninguém, mas foi milagre. Eu não entendo é isso...Agora que ninguém está querendo nada, eles estão desmoronando o prédio. Mas quando o povo queria derrubar, a polícia meteu bala nos leiteiros, em todo mundo...
- A vida é assim mesmo, Sô Chico. Mas Deus escreve certo por linhas tortas.
- Não é assim, menino. Você aprendeu errado. Deus escreve certo em linhas certas. Os homens é que são cegos. São cegos e surdos.
- Ta certo, Sô Chico. O senhor está certo.
- Qual é mesmo a sua graça?
- Zeca. Sou o Zeca Simão.
- Muito prazer. Chico Franco, seu criado. Desculpe, mas eu vou indo, já está ficando tarde. Eu moro longe, atrás da linha do trem. Até mais, meu jovem.
- Até mais, Sô Chico.
Chico Franco atravessa a avenida com dificuldade, atravessa mais duas ruas, até alcançar a Rua Frei Germano. Por ela caminha lentamente, em direção ao antigo prédio da Companhia Mogiana.

Ele é muito conhecido naquela região da cidade. Então, ali não causam estranheza seu terno branco, sua gravata cinza, seus sapatos engraxados, seu chapéu, sua bengala que arranca sons rítmicos das pedras da calçada. Ao contrário, ao cruzar com as pessoas e se descobrir, elas o saúdam efusivamente.
- Boa-tarde, Sô Chico.
Chico Franco é ainda mais pródigo.
- Boa-tarde, boa-tarde.
Os cumprimentos são honestos. São alegres.
Doída é a tarde.



 

Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras