Boca suja

Por: José Antonio Pereira

Lembro-me, como se fosse hoje, de uma cena que se passou no velho ginásio do Clube dos Bagres. Havia um espetáculo de luta-livre, dessas lutas em que tudo é permitido: socos, pontapés, mordidas, golpes altos e baixos. Embora as disputas parecessem cruéis e violentas, elas eram, em sua maior parte, salvo alguns descuidos, frutos de uma bem preparada coreografia. As arquibancadas estavam repletas. A gritaria era geral, dentro e fora do ringue. Se não me engano, lutavam , dentre outros, naquela noite fria, o Gorila Perez, o Alemão, o Índio, o Mascarado. Gorila Perez eriçava a platéia com suas provocações. Em certo momento, ele saiu do ringue e dirigiu-se para a arquibancada com um ar ameaçador. A galera deu uma recuada e a algazarra tomou conta do recinto. Ânimos sossegados, um espectador inconveniente continuou alterado e proferindo os mais impublicáveis palavrões. É nesta hora que Juquinha Vilhena, diretor do Clube dos Bagres, vai até o
boca suja e o convida a se retirar do ginásio. E ele saiu. Saiu meio sem graça, meio cabisbaixo, mas saiu. Saiu e ainda foi suspenso do Clube por um bom período. Se essa atitude fosse tomada em nossos dias, o mais provável seria que Juquinha Vilhena fosse expulso do ginásio sob fortes apupos e sob uma densa chuva de múltiplos e variados palavrões.

É, os tempos mudaram. E como mudaram! No entanto, parece que as autoridades de Alagoas não se aperceberam disso e baixaram uma portaria (em defesa da moral e dos bons costumes ) proibindo palavrões nos estádios de futebol. A idéia é boa, mas completamente impraticável. Vou mais longe: ela é risível. Como é que os jogadores iriam se comunicar em campo, os técnicos orientarem suas equipes, a torcida manifestar-se contra os árbitros? Em São Paulo, no Rio, em Curitiba, a polícia está tentando evitar as mortes nos estádios. “Xinguem, mas não se matem “, esse é o lema, lema que vem encontrando enormes dificuldade em ser praticado.

No Brasil, há um pensamento burocrático, perigoso e enganoso. Para ele, basta uma lei, um decreto, uma portaria, uma simples resolução para que os problemas sejam resolvidos. Por isso mesmo, não é de se estranhar que, dentre outros, existam em nossa Constituição artigos totalmente divorciados da realidade. Não é a própria Constituição que determina que o salário mínimo deve satisfazer às necessidades básicas do trabalhador e de sua família, isto é, moradia, educação, saúde, lazer e etc.? Depois disso, não dá vontade soltar um palavrão?



 

Chiachiri Filho é historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo municipal e membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras