O fim do mundo

Por: José Antonio Pereira

O Sol começava a despontar no horizonte, quando a adolescente foi despertada pela mãe.
- É hora de levantar, filha. O almoço está quase pronto...

Tão logo terminou o preparo, a mulher tomou uma “lavadeira”, uma bacia de alumínio grande, em que foi dispondo a comida: num canto o arroz, noutro o feijão, noutro as misturas abóbora refogada e pedaços de lombo de porco curtido na gordura. Em seguida, enrolou a bacia numa toalha, enfiando dentro do invólucro, pelas laterais, cinco garfos e cinco pratos esmaltados.
- Filha, a comida já está na lavadeira, você sabe onde é a capoeira, não sabe?
- Sei, mãe, respondeu a mocinha, ainda esfregando os olhos.
- Então vá indo. Os homens estão com fome. Estão roçando pasto... Advertiu a mulher, enquanto enrolava outra toalha, fazendo dela uma rodilha.

A menina se aproximou. A mãe colocou-lhe a rodilha de pano sobre a cabeça e, sobre ela, a bacia de comida.
- Vai com Deus. Cuidado na envernadinha. Teu pai falou que pode ter vaca parida...
- Vaca? A menina arregalou os olhos. Já tomara carreira de vaca na volta da escola, numa fazenda distante. Só escapara porque mergulhara sob uma cerca. Mas, rasgara o vestido e ainda tinha bem marcados nas costas os sinais do arame.
- Não precisa ter medo. Quando chegar lá vá andando por perto da cerca.
- Abeirando o mato?
- Ora, deixe de inventar coisas e trate de ir logo! Chame o Leão pra ir com você.

A menina partiu mais confiante, com o cão à frente. Apesar do porte mediano, para ela o animal representava proteção absoluta, porque vivia fora da casa, mesmo à noite, num lugar ermo, rodeado de mata intocada. Ouvira que cães afastam até onças das vizinhanças da casa.

Ao se aproximar da envernadinha, uma extensa região de pastos abandonados, o céu começou a escurecer. Pensando em chuva, a menina apertou o passo. Estava a meio do caminho entre a casa e a roça. Como escurecia rápido, abandonou a idéia de seguir próximo da cerca, ladeando a mata. O cão, instintivamente, passou a andar mais próximo, como que para protegê-la.

Quando já não enxergava mais o caminho, a menina começou a soluçar. No entanto, o Leão, à sua frente, parecia saber claramente aonde ia e, de vez em quando olhava para trás e dava grunhidos simpáticos, agitando a cauda. De repente a menina começou a ouvir vozes ao longe, na escuridão, que foram se tornando mais próximas. Depois passou a ouvir também passos apressados vindo em sua direção. Notou, então, que Leão havia desaparecido. Gritou pelo animal, desesperada. Ouviu, porém, a voz do pai gritando o seu nome. Respondeu com voz trêmula. Percebeu, então, que o cão havia se adiantado para encontrar o pai e os irmãos que voltavam para casa pela mesma trilha. O pai tomou-lhe a bacia da cabeça e seguiram juntos, apressados. O silencio dos homens denotava tensão e medo contidos. O mais moço deles, um rapazola de pouco mais de quinze anos, aproximou-se da menina, os olhos marejados, e sussurrou-lhe comovido:
- Acho que o mundo está acabando...

Imensa tristeza se abateu sobre os adolescentes, que seguiram soluçando, a reboque do grupo. No caminho ainda encontraram a mulher, que vinha correndo, gritando pela filha.

Ao chegarem, entraram em silêncio e se puseram a rezar. O pai, apenas, tomou de uma lamparina e procurava, aflito, alguma coisa no fundo do baú, ao lado da cama do casal. De repente, irrompeu-se na cozinha, onde estavam os demais, com uma brochura na mão - um almanaque que ganhara na farmácia no início do ano.
- Maria, gritou entregando o livreto à menina. Veja aqui, onde está marcado com lápis...

A menina, a única pessoa que sabia ler da família, leu sob o título “Efemérides do ano de 1946 - 28 de agosto: eclipse total do Sol na região Sudeste do Brasil; horário: 8 horas da manhã”.
- Bem que o Tavico me avisou! Achei que fosse bobagem...
Lá fora o céu começava a clarear.



 

José Borges da Silva Membro da Academia Francana de Letras

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