Desejo, sabor e artes infantis

Por: José Antonio Pereira

Num domingo, em silêncio, entro na casa de meus pais que tiram um cochilo vespertino, antes do tradicional jogo de futebol da tarde na TV. Sobre a mesa da copa, um vistoso e enorme pacote de chocolates da marca Desejo & Sabor. Quem poderia cometer tal desatino numa casa da família Ferreira, já que, segundo dizem a más línguas, temos parentesco com as formigas doceiras? Deixar bombons à vista de todo mundo, dos filhos, dos netos? Foi minha mãe, esquecida de esconder os chocolates da galera esfomeada. Conforme vai chegando gente, a iguaria desaparece num piscar de olhos.

Mais tarde, descubro que foi um presente da Cíntia, minha sobrinha que estuda medicina em Santos e veio fazer estágio na Santa Casa. Antes de voltar às aulas, deixou os bombons. Na hora do café, a história vai se desenrolando em torno do sabor das lembranças do Chiquinho Maniglia, que era amigo do meu pai e funcionário da fábrica Samello, dos tempos que ele era vendedor de couros da Curtidora Campineira. Chiquinho tinha várias filhas e devia ser um homem de muita sorte, pois a casa alugada onde meus pais moraram uns tempos, na rua José Bonifácio, ele ganhou num sorteio das famosas Cestas de Natal Amaral, que nos anos 1950 e 60 eram objeto de desejo de todas as famílias remediadas como a nossa, com seus quitutes natalinos.

Sua filha Cleuza, doceira de mão cheia, é a criadora da fábrica de chocolates Desejo & Sabor. É mais uma daquelas empresas francanas que começam em casa e vão se desenvolvendo, crescendo e transformando-se em empresas reconhecidas Brasil afora, mesmo sendo da terra do calçado. Pois foi num aniversário em minha casa que ela protagonizou uma arte infantil do meu irmão Gonzaga. Era aniversário do meu irmão Marcos. Gonzaga ficou de plantão na porta de casa esperando os convidados e os presentes, tipo Pistolinha, querendo controlar tudo. Mais os presentes que os convidados, certamente. Quando o Chiquinho Maniglia chegou com a filha Cleuza a tiracolo, ao invés de um brinquedo de presente, entregou uma nota de dinheiro.

Meu irmão Gonzaga, muito pequeno ainda, viu aquele pedaço de papel nas mãos do Marcos, olhou de um lado, olhou de outro e não entendeu. Virou-se para a Cleuza e disse, sério: “você não vai poder ficar na festa, porque não trouxe presente”. Imaginem o constrangimento geral, minha tia Julieta teve que intervir para mostrar ao mal-educado que dinheiro também era presente, podiam comprar o brinquedo que quisessem com aquele pedaço de papel. Ainda que meio desconfiado, ele acabou aceitando a explicação, a Cleuza continuou na festa comendo os doces que minha mãe fazia, cantou os parabéns e só depois, muito depois, fez sucesso fazendo seus próprios doces.



 

Mauro Ferreira é arquiteto, escritor

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