Hotel Francano

Por: José Antonio Pereira

O Dinho, marido da Dona Alice, sai da Casa Lotérica, ali no calçadão da Rua Marechal Deodoro, caminha em direção à Rua Campos Sales. Quase na esquina, resolve descansar, antes de enfrentar caminhada longa até o bairro Santo Agostinho. Senta-se no banco de cimento, ao lado de um senhor muito idoso que fala algo:
- Isso parece mercado persa.
- Não entendi. O senhor pode repetir?
- Ah, bom-dia, jovem. Qual é a sua graça ?
- Todo mundo me chama de Dinho.
- Muito prazer, Dinho. Chico Franco, seu criado.
- Parece que o senhor falou alguma coisa de mercado.
- Pois é, você também não acha? Parece mercado persa.

Dinho estudou pouco. Não imagina que já existiu uma Pérsia, hoje Irã, que enriquece urânio e que deixa preocupados vizinhos próximos e distantes.
- Do que que o senhor está falando?
- Daquilo ali...
- Ah, os camelôs.
- Pois é, Dinho. Aqui já foi o Largo da Misericórdia. Em 1928, a Prefeitura construiu aqui o Hotel Francano. Depois ela vendeu o hotel para particulares, e o estabelecimento foi passando de mão em mão, até ficar abandonado e ser comprado pelo Magazine Luíza. Aí, algumas pessoas da cidade queriam que a Prefeitura comprasse o hotel, restaurasse tudo e o transformasse em Casa da Cultura. Fizeram movimentos, queriam que o Condefat estadual tombasse o edifício.
- Nossa, o senhor tem memória boa, hein?
- Tenho cabeça muito boa, jovem. Qual é mesmo a sua graça?
-Dinho. Meu nome é Dinho.
- Chico Franco, seu criado.
- O senhor estava falando do Hotel Francano.
- Ah, menino, eu lembro tudo direitinho. O Mauro Ferreira fez movimento, reuniu um monte de gente na porta do hotel, nós distribuímos folhetos. O professor Carrato fez discurso. Eu estava lá, morrendo de medo, porque a polícia cercou a rua, falando que ia prender, que todo mundo que estava ali era comunista. Era época da ditadura... em abril de 1981, parece. Foi quando o Mauro fez lançamento do seu livro Noite dos Espantalhos e Parasitas.
- Prenderam alguém?
- Prenderam nada, só queriam passar medo, fazer o povo ir embora.
- E a falação adiantou alguma coisa?
- Serviu pra gente saber que o hotel não era mais do Magazine Luíza, tinha sido vendido para o Banco Itaú.
- Aí não adiantou mais comício.
- Bem que o Mauro Ferreira ainda fez movimento. Ele me chamou, eu fui junto com umas dez pessoas conversar com o Olavo Setúbal, presidente do Banco Itaú. Não adiantou nada, pois ele expulsou todo mundo da sala. Não demorou nem mais um mês e já tinham derrubado o Hotel Francano. Agora é isso... a praça virou mercado persa.
- Foi uma pena.
- Uma pena.
- Ah, Sô Chico, o senhor desculpe, mas eu tenho que ir. A Alice, a minha mulher, está esperando eu levar a mistura pro almoço.
- Eu também já estou indo. Eu moro longe, atrás da linha do trem.
- Se o senhor quiser, eu acompanho o senhor até o ponto de ônibus.
- Não, não. Eu não ando de ônibus. O coração do homem está nas pernas. Faça chuva, faça sol, eu vou a pé. Vou e volto a pé. O jovem pode me dizer como chego na Rua dos Bondes?
- É mais fácil o senhor ir pela Rua da Estação. Venha que eu vou até lá com o senhor.

E Dinho segue ao lado daquele homem de terno branco, até a Rua Voluntários da Franca. Às vezes tem vontade de rir, vendo o velhinho se descobrir cada vez que cruza com algum apressado que sequer observa o gesto, que sequer escuta as batidas da bengala que arranca sons surdos da calçada irregular.

Assim passam ao largo do antigo Largo da Misericórdia, da antiga Praça do Hotel Francano, ao largo da Praça Dom Pedro II, hoje popularmente conhecida como Shoping Itaú.



 

Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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