Estrelas e esferas

Por: José Antonio Pereira

O prezado leitor já deve ter erguido o seu olhar para o céu em noites de densas trevas, sem nuvens e sem lua. Provavelmente deslumbrou-se com milhões e milhões de pontinhos luminosos cintilando na mais cerrada escuridão. Já viu os contornos brilhantes das constelações definindo formas e figuras. É provavel também que se deixou envolver, extasiado, pelos “cabelos de Berenice “ e arrancou da Via Láctea uma, duas, dezenas de estrelas para ofertá-las à amada que se aconchegava e suspirava em seus braços.

A noite é pausa, descanso, silêncio, paz. A noite é feita para as grandes e profundas reflexões. A noite é para amar e olhar as estrelas. O que seria a noite sem estrelas? Um manto escuro, sufocante e sem graça. As estrelas são os enfeites das trevas.

Ah! Como é bela a noite quando aparece com seu manto negro bordado de pontinhos fulgurantes!

O prezado leitor já deve ter olhado o céu através de um telescópio. Se olhou, viu milhares de esferas rodopiando no espaço sideral. Esferas de metal, de pedra, de fogo que giram eternamente em direção ao infinito. São milhares de globos flutuantes, suspensos no ar, céleres, estéreis, sem vida , sem sentido. São milhões, bilhões de esferas que giram e avançam até se transformarem em poeira, em pó, em luz, em nada.

O cosmo me atordoa, me assusta, me apavora. Não consigo entendê-lo. Não compreendo a razão, a necessidade, o sentido de tantos astros e planetas girando em torno de si, correndo velozmente pelo espaço em busca do desconhecido. Para que tantos globos inabitáveis, sem água, sem ar, sem consciência, sem gente que possa admirar o planeta azul? O cosmo, nem mesmo os matemáticos o entendem: apenas o descrevem.

O misterioso, enigmático e insondável cosmo, prezado leitor, não foi feito para ser entendido. Ele foi feito para ser contemplado. Contemplado à noite pelos poetas. Só os poetas podem intuir o seu significado profundo e absoluto quando, em noite de densas trevas, colhem do céu estrelado um diamante de luz para adornar os cabelos de sua amada que se aninha em seu peito e o torna apto a ouvir e entender estrelas.



 

Chiachiri Filho é historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo municipal e membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras