‘Grande Sertão: Veredas’, o DVD

Por: José Antonio Pereira

Os quatro maiores romances do século xx foram Em busca do tempo perdido, do francês Marcel Proust; Ulysses, do irlandês Joyce; A montanha mágica, do alemão Thomas Mann; Grande Sertão: Veredas, do brasileiro João Guimarães Rosa. Todos épicos, no sentido do heroismo. Heróis são os protagonistas Marcel, Ulysses, Castorp, Riobaldo, que trilham caminhos diversos. Suas trajetórias duram respectivamente décadas, apenas um dia, alguns meses, poucos anos. Marcel resgata o tempo perdido; Ulisses questiona sua história; Castorp convive com doença incurável; Riobaldo atravessa o sertão. Todos procuram respostas a perguntas perturbadoras sobre seu estar-no-mundo. Seduzidos pelas histórias, cineastas tentaram a transposição destas obras-primas para as telas. O único até agora a conseguir realizar a proeza com competência extraordinária foi Walter Avancini (1935-2001). Ele levou para a televisão o escritor brasileiro que revolucionou a linguagem literária, criando nova forma de narrar.

Era 1985 e o Brasil estava ingressando num período que hoje vemos como de retomada da liberdade. Por mais de 20 anos vivêramos em regime ditatorial. Começava-se a respirar, mas a censura ainda vigia aqui e ali, era necessário ter cuidado. Avancini foi ousado ao mostrar em imagens a tensão sexual entre os jagunços Riobaldo e Diadorim. Se na clareza do discurso roseano ela era translúcida, em imagens teria de ser sugestiva sem aparentar demasiada delicadeza. Contando com o trabalho de excepcional qualidade de Walter George Durst na adaptação, e dos atores Tony Ramos e Bruna Lombardi como protagonistas, além de um elenco enorme que ficou recluso três meses em Paredão de Minas, vilarejo de 225 habitantes, Avancini parou o Brasil ao exibir a minissérie na Globo, nos dois últimos meses do ano em que foi produzida. Prova evidente de que o trabalho se tornou um clássico é que está disponível em DVD desde a semana passada, e vem arrancando elogios da crítica e do público. Quem viu, está querendo ver de novo. Quem não viu e ouviu falar dele, quer ver. 25 anos se passaram e a qualidade está intacta.

Em entrevista ao jornalista Antonio Gonçalves Filho, a propósito do recente lançamento, Bruna Lombardi relembra que ficou tão possuída pelo personagem que “passou três meses sem menstruar”. E mais: confessa que na época ficou exaurida, chafurdou na lama e passou fome, tinha de fazer suas necessidades no meio do mato, pensou em cortar os pulsos, precisou lidar com o pavor doentio diante de facas e outras armas. Diretor severo, perfeccionista, para muitos um tirano, Avancini não permitia qualquer artifício em cena. Seu nível de exigência resultou numa obra grandiosa, digna do texto em que se inspirou.

Quem já leu o romance, ou pelo menos conhece algum texto de Guimarães Rosa, sabe que há uma frase-chave para compreendê-lo e ela está na boca de Riobaldo: “ O melhor do mundo é isso, que as coisas não estão acabadas, elas estão sempre mudando”. Parece que Avancini focou nela ao transpor linguagem escrita para imagens em movimento, ao compor personagens. Riobaldo, por exemplo, vivido por Tony Ramos, é nitidamente mostrado em seus três momentos de transformação. No início, como jagunço integrante do bando de Hermógenes (Tarcísio Meira), é valente mas discreto; ao disputar a chefia com Zé Bebelo (José Dumont) já se tornou audaz; no processo de vingança que o leva a travessias cruciais e à morte de Reinaldo/Diadorim, é cruel. Sucessivamente Riobaldo-Tatarana, Riobaldo-Urutu-Branco, Riobaldo-Tatarana-Urutu-Branco, Tony Ramos mostrou ali, nas nuances de sua expressão facial e corporal, que já era um dos maiores nomes entre atores brasileiros.

Quero citar quatro momentos que resistem na minha memória de espectadora: o encontro de Riobaldo e Diadorim na infância; de Riobaldo e Otacília, ela lhe respondendo como se chamavam as flores de seu jardim; e o da revelação do sexo de Reinaldo/Diadorim, depois da morte, quando o corpo é preparado para o velório. O quarto momento torna-se inesquecível pelo caráter metafórico. Trata-se de um conto inteiro que Avancini inseriu na história. Uma mulher, por simples maldade, mata o marido derramando em seu ouvido, enquanto ele dorme, chumbo derretido. Depois, mata o padre, ao se confessar repetidas vezes e contar detalhes de seu crime só para atormentar o religioso. O ouvido pode ser veículo de morte. Palavras , como o chumbo, podem matar.

Grande cinema, a partir de grande literatura. Deste Brasil das artes e dos artistas precisaríamos nos orgulhar mais.

Serviço
Título: Grande Sertão: Veredas
Da obra de Guimarães Rosa
Direção: Walter Avancini
Formato: Caixa com 4 DVDs
Preço: R$ 69,90
Distribuição: Globo Marcos



 

Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço

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