'Cuide de você'

Por: Maria Luiza Salomão

Sophie Calle (fotógrafa, escritora, artista conceitual) recebeu um e-mail, no qual o namorado termina o namoro e diz que não poderia continuar já que ela exigia que não transasse mais com nenhuma outra mulher. Submetia-se à ideia de Sophie de que, se terminassem, não seguiriam “amigos’.

Sophie, ao receber o e-mail de Grégoire, escritor, fez cópias e o remeteu a 107 mulheres, de diferentes profissões, juíza, escritora, dançarina, palhaça, uma criança, uma adolescente, uma leitora de cartas de Tarô, advogada, delegada de polícia, música, etc., convidadas a interpretar, analisar, examinar, ou realizar uma performance tendo como referência a carta de Grégoire.

Recebi uma carta de rompimento. E não soube respondê-la. Era como se ela não me fosse destinada. Ela terminava com as seguintes palavras: “cuide de você”. Levei esta recomendação ao pé da letra. Convidei 107mulheres, escolhidas de acordo com a profissão, para interpretar a carta do ponto de vista profissional. Analisá-la, comentá-la, dançá-la. Esgotá-la. Entendê-la em meu lugar. Responder por mim. Era uma maneira de ganhar tempo antes de romper. Uma maneira de cuidar de mim. Ass.Sophie Calle.

A exposição no MAM do Rio de Janeiro ocupava um amplo espaço, com vídeos e interpretações coladas às paredes, das mulheres consultadas por Sophie. Um pássaro (vivo) na gaiola tinha o objeto-carta à disposição.

Não consegui ver o que todas as 107 mulheres “responderam” a Sophie. Fiquei perto de 3 horas no Museu, e, ao final, me cansei. Mas, antes de me cansar, eu ri, meditei, vi outras mulheres curtindo a exposição, me espantei ao ver homens de várias idades, alguns solitários, inclusive. Por que me espantei ao ver os homens lá, olhando tudo aquilo? Porque é tão incrivelmente feminina a criação desta instalação de Sophie!

Muitas risadas no salão, mulheres de todas as idades, em grupos, em duo, trio e casais. A gente recebe, logo na entrada a tal carta do Grégoire, o namorado.

A resposta mais satisfatória para mim, até onde pude usufruir, foi de uma escritora (não guardei o seu nome), que escreveu, curto e grosso, que a procura de Sophie por um batalhão de mulheres era a busca de um “coro da Morte”, já que ao se reunirem para falar de homens, tendem a se mobilizar para transformar os homens em mulheres. Segundo minha interpretação, a escritora chama a atenção para o fato de que, quando as mulheres se juntam se mobilizam para tentar mudar o homem para que pense, sinta, aja como mulher. OU seja, uma impossibilidade e, no limite, um assassinato.

Talvez os homens, ao se reunir, em bloco, façam o mesmo. Se há possibilidade de entendimento entre um homem e uma mulher,penso que ela se dá na intimidade, na construção de liames sutis de entendimento. Liames invisíveis a olho nu, sob luz intensa.

Intimidade pressupõe o reconhecimento das afinidades e das diferenças, construção que exige acomodação, no sentido de comodidade e jeito.

Ao tornar pública a relação há um esgarçamento dos afetos, um estranhamento. No limite, o reconhecimento da impossibilidade do universo feminino conter o masculino, ou do universo masculino penetrar no feminino. Há uma distância virtual entre gêneros, cuja representação plástica, no caso, é o e-mail de separação, passível de infinitas interpretações.

Eu, se fosse Sophie, pediria ajuda também para 107 homens, de diferentes ocupações: bombeiro, soldado, psicanalista, ator, dançarino, chofer de caminhão, garçom, jardineiro, professor, menino adolescente, menino criança, etc.

Talvez me confundisse, mas talvez houvesse uma chance de compreender Grégoire e, ao tentar compreendê-lo, compreender o buraco cavado no “dentro” da relação. Cuidar do que foi construído junto para resgatar o que legitimamente é de cada um. A forma de separação também é uma forma de cuidado consigo, com o outro.

Para bem separar é preciso estar bem junto antes.



 

Maria Luiza Salomão é psicóloga, do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, e membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras