É hoje, mas parece que foi ontem

Por: José Antonio Pereira

Sábado de carnaval, dias atrás. Zapeando a TV entre um jogo perdido do campeonato português, esterco americano e a venda de um espartilho que faz perder oito quilos em trinta segundos, um oásis. Uma entrevista do príncipe do samba Paulinho da Viola, a contar que uma das maiores emoções da sua vida foi no carnaval de 1970 quando, após cantar o samba-enredo oficial, a Portela e a platéia começaram a cantar por conta própria “Foi um rio que passou em minha vida”, um dos mais belos sambas da história, que ele compôs.

Paulinho me transportou de volta para o início de 1970, para o carnaval daquele ano, o último da adolescência sem preocupações, o último antes dos momentos decisivos para minha turma. Tínhamos terminado o curso científico e a vida adulta iria se iniciar, tanta coisa para resolver. A definição de uma carreira, trabalho, universidade, amores, medos, angústias, a saída da casa dos pais. Momento de transição. A imagem inesquecível daqueles tempos é uma foto de parte do nosso grupo de estudantes no velho estádio da Francana, o Nhô Chico, posando como um time de futebol, numa manhã memorável e heróica quando conseguimos um empate com o time dos professores do IETC. Quem encomendou aquela foto em preto e branco? Quem pagou? Quem distribuiu aquele registro único? Ninguém sabe, a resposta se perdeu nas brumas do tempo passado.

Todos, muito jovens, olhavam para a câmera plenos de certeza que tudo ia dar certo, o futuro era promissor e cheio de esperanças. Por isso Paulinho da Viola acertou tanto em escrever que, “se um dia, meu coração for consultado, para saber se andou errado, será difícil negar” e que “a marca dos meus desenganos ficou, só um amor pode apagar”. Cada um dos rapazes e garotas daquela turma seguiu seus próprios caminhos, mas hoje eles voltam a se encontrar exatamente nas escadarias do velho IETC, depois de muita insistência dos colegas que se mudaram para longe. São quarenta anos passados quando todos nos separamos depois de alguns anos fundamentais em nossas vidas, de crescimento, convivência e amizade, dividindo sonhos e esperanças mútuas. O que fizemos, os da foto e os que estavam nas arquibancadas torcendo por nós, o que construímos, que trilhas percorremos, que mundos descobrimos? Saberemos logo. Posso parodiar Paulinho cantando desafinado que o IETC e o azul de Franca “não era do céu, nem era do mar, foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar”.

Paulinho da Viola terminou a entrevista com uma frase do sambista Wilson Batista, dizendo que “não vivo no passado, mas o passado vive em mim.” É certo. Tão certo quanto nos reencontraremos ao som de “não se perca de mim, não se esqueça de mim, não desapareça, a gente se embora, se embola, só pára na porta da igreja, a gente se olha, se beija, se molha, de chuva, suor e cerveja”. E, talvez, de lágrimas.



 

Mauro Ferreira é arquiteto, escritor

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